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Ricardo Rodrigues
Carlos Henrique é sobrinho do morto, mas diz que não pode fazer nada

06 de Novembro de 2015

Sem registro, servente pode virar indigente

Corpo de Paulo Roseta está há três semanas no IML, mas não é liberado para o sepultamento por falta dos documentos

Sem lenço e sem documento, nada nos bolsos ou nas mãos - como na música de Caetano Veloso, o corpo do servente de pedreiro Paulo Roseta da Silva, falecido do coração há três semanas, deu entrada no Instituto Médico Legal Estácio de Lima – o IML de Maceió, no dia 16 de outubro deste ano. Como nunca teve certidão de nascimento ou carteira de identidade, muito menos CPF e conta bancária, Paulo Roseta – como era conhecido na Pitanguinha, corre o risco de ser enterrado como indigente em uma das covas dos fundos do Cemitério Divina Pastora, em Fernão Velho, na periferia da capital alagoana.

Nascido em Maceió, Roseta tinha cerca de 65 anos e era uma espécie de ‘figura folclórica’, conhecidíssima dos moradores do bairro da Pitanguinha, principalmente entre os boêmios. De acordo com os amigos que frequentam o 'Cantinho do Pão', na avenida principal do bairro, o servente de pedreiro era trabalhador, respeitador e da paz. “Quando estava bom, sem beber, ficava calado, nos cantos, mas quando bebia ficava alegre, falava alto, brincava com todo mundo, mas sempre dentro dos limites”, conta o amigo Hélio Santos, coveiro aposentado. “O mais triste de tudo foi não poder sepultar o corpo dele, até agora”, revela.

Na opinião do coveiro aposentado, que enterrou muita gente na região de Pão de Açúcar, até o final dos anos 90, Paulo Roseta deveria ser sepultado de todo jeito, nem que fosse como indigente. “Pode enterrar como indigente; como melhor amigo dele, eu autorizo”, afirmou resignado Hélio Santos. No entanto, para outros amigos de copo, que também gostavam de beber umas e outras com Paulo Roseta, o servente merece um sepultamento cristão, com direito a velório e cruz. “Se ele for enterrado como indigente, nem direito a uma cruz ele vai ter”, comentou o amigo Orlando, morador da Pitanguinha.

No IML de Maceió o caso de Paulo Roseta já está ganhando repercussão. O policial civil José Carlos Elias de Oliveira, que é funcionário do Instituto, disse que conhecia o servente. “Fui colega dele desde a adolescência, naquela região da Pitanguinha todo mundo conhecia ele, era uma pessoa queria e tinha serviços prestados, pena que morreu pobre e sem documentos”, lamentou o amigo. Zé Carlos revelou ainda que está fazendo de tudo para manter o corpo do amigo no Instituto, mas se a família não providenciar a documentação dele o cadáver será levado para ser enterrado como indigente.

PRAZO VENCE DIA 16

No final da manhã desta sexta-feira (06/11), o assessor de imprensa da Perícia Oficial do Estado, jornalista Aarão José confirmou que o corpo de Paulo Roseta continua na geladeira do IML por falta de documentos. “Sem documento de identificação o corpo não é liberado, Só sai do IML por decisão judicial ou para ser enterrado como indigente em um dos cemitérios administrados pela Prefeitura de Maceió”, explicou Aarão. Segundo ele, o prazo máximo de permanência de corpos em identificação no IML é de 30 dias. Portanto, o prazo de permanência do corpo do servente vence no dia 16 de novembro.

Até lá, os amigos de copo dizem que vão fazer de tudo para o servente ter um sepultamento digno e cristão. “Ele não tinha documentos, mas acreditava em Deus, embora fosse também meio anarquista”, lembrou o dono do 'Cantinho do Pão', que apesar do nome também vende bebidas alcoólicas. Por isso, costuma receber uma turma moradores do bairro, conhecidos como ‘bons de copo’, num horário estratégico, entre o final da manhã e o começo da tarde. De acordo com o comerciante, dono do bar, quando bebia, o servente de pedreiro costumava gritar pelas ruas do bairro que era o “Roseta”.

“Fez muitos serviços para a comunidade, trabalhou muito, sempre foi respeitador e da paz, seu único defeito era beber”, afirmou o dono do bar onde Paulo Roseta costumava beber, de vez em quando. Os colegas de copo também fizeram questão de registrar a boa índole do morto. “Morreu de morte morrida, mas mesmo assim não tem sossego”, comentou outro frequentador do 'Cantinho do Pão'. Para os amigos, faltou empenho dos familiares na liberação do corpo. “Os parentes são pobres e distantes, todos têm seus afazeres, não podem fazer muita coisa, por isso que o corpo dele ainda está no IML”, comentou Hélio Santos, que se dizia "amigo de fé" do servente.

O coveiro aposentado foi com a nossa equipe de reportagem até a casa onde morou Paulo Roseta, na favela da Moenda, uma grota entre os bairros da Pitanguinha e do Feitosa, na parte alta da cidade. Da varanda da casa, onde o servente morava de favor na casa de uma sobrinha, dava para ver o Riacho Reginaldo passando raquítico lá embaixo, rumo ao Salgadinho e de lá para a Praia da Avenida. Fomos recebidos por Roberto Luciano dos Santos, marido de Erenice da Silva, sobrinha de Paulo Roseta. Ele disse que o servente morreu do coração dentro do barraco na madrugada do dia 16.

“Ultimamente andava bebendo muito, meio desgostoso, dormindo pelas ruas e sem se cuidar”, revelou Roberto, acrescentando que fui buscá-lo algumas vezes jogado pelas calçadas do bairro e o trazia para casa. “A gente gostava dele, cuidava dele, mas ele era quem não se dava o devido valor, dizia que não estava nem aí”, acrescentou. Outros parentes ouvidos pela reportagem do site também disseram que o servente nunca se casou, não tinha filhos e não gostava de documentos. “Ele dizia que não precisava de documentos. Nem se aposentar ele queria”, revelou o sobrinho Luiz Eduardo da Silva, que é dono de uma lanchonete na avenida principal do Feitosa.

Carlos Henrique da Silva, irmão de Eduardo e sobrinho do servente, também nunca entendeu essa atitude do tio, mas não esperava que a falta de documentos fosse complicar tanto o seu sepultamento. “Ele sempre trabalhou por conta própria, fazendo bicos, sem registro em carteira; ganhava a vida assim, honestamente. Por isso, dizia que não precisava de documentos e nunca os tirou”, contou Carlos, que presta serviço como jardineiro no Sindicato dos Jornalistas de Alagoas. Foi por meio dele que tomamos conhecimento da história de Paulo Roseta.

MORTOS SEM SEPULTURAS

O caso do servente de pedreiro da Pitanguinha lembra a peça 'Mortos Sem Sepultura', de Jean-Paul Sartre, encenada pela primeira vez em 1946. Composta por três atos, a peça do filósofo e escritor francês narra a história de um grupo de partidários que, durante a segunda guerra mundial, atacou um vilarejo francês, matou muitas pessoas consideradas inocentes e, consequentemente, foi preso pela milícia. Com doze personagens, esta obra tem como tema principal as consequências da guerra sobre as pessoas.

A falta de sepultura para Paulo Roseta lembra também a história de outro bêbado "famoso": Joaquim Soares da Cunha - o Quincas, protagonista do livro 'A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água', do escritor baiano Jorge Amado. Escrito em 1959, o livro conta as peripécias de um pacato servidor público que toma todas e passa dessa para melhor, só que os amigos se negam a entregar seu corpo à família. Antes do enterro, passeiam com Quincas pelos botecos da cidade, curtindo os últimos momentos do morto.

Os amigos de Paulo Roseta até que gostariam de desfrutar de uma oportunidade dessas, mas não tiveram tempo, quando tomaram conhecimento da morte do servente, o corpo dele já estava retido no IML, por falta de documentação. A assessoria do IML informou que foram tiradas as impressões digitais do morto e levadas para comparação com os arquivos do Instituto de Identificação do Estado de Alagoas, mas até o momento não foi localizada nenhuma ficha com o nome dele. Provavelmente, o servente não tinha RG.

A família busca agora a ajuda da Justiça, da Defensoria Pública ou do Ministério Público Estadual para liberar o corpo de Paulo Roseta. Caso não consiga, parente e amigos terão que se conformar com enterro do servente de pedreiro como indigente no Cemitério Divina Pastora, onde mais de mil corpos de vítimas da violência estão enterrados e sinalizados apenas por varetas, cada uma com seus respectivo número. O número do "suposto" Paulo Roseta no IML é 14059. Esse número que irá acompanhar o seu morto, caso seja enterrado como indigente.

É a partir desse número que as informações sobre o dia e a causa da sua morte, bem suas impressões digitais, poderão ser acessada, caso a família consiga sua documentação. Só assim o corpo do servente boêmio poderá ser liberado ou exumado, caso tenha sido enterrado como indigente, no cemitério dos mortos sem sepulturas. Só assim os amigos e parentes poderiam, enfim, realizar um enterro decente para Paulo Roseta, o Quincas Berro d'Água da Pitanguinha, que tantos serviços prestou às famílias do bairro, inclusive a irmã do filho ilustre Djavan.

Ricardo Rodrigues
Repórter

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Fabiano
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