Almanaque Alagoas - Vida inteligente na web
SOMOS TODOS ALAGOANOS

Notícias

Cultura
Raquel Brandão

04 de Maio de 2011

Saudáveis Subversivos provocam, com Desnuda

“Desnuda, um convite ao feminino” estreou na segunda, no Teatro Linda Mascarenhas

Ousada, a Associação Artística Saudáveis Subversivos estreou, segunda-feira (2), no Teatro Linda Mascarenhas, o seu novo espetáculo de Dança: “Desnuda, um convite ao feminino”.

Antes da apresentação, ansiosas, cerca de 40 pessoas esperavam ao redor do pequeno teatro o início de mais uma experiência dramática. A platéia aos poucos se acomodou em colchonetes embalados a sons de pássaros. Uma suave fragrância, a penumbra e rendas dispostas em imensos retângulos criavam o ambiente. Apenas uma mulher de meia idade, com expressão de enjôo, sequer sentou com a platéia, com uma expressão confusa na face, deu meia-volta, um tanto incomodada, avisou à produção do evento que não ficaria, e saiu.

Assim, quando todos já se encontravam acomodados, entra seminua uma atriz, com passos leves, debruça o olhar sobre os espectadores, ao mesmo tempo em que se atira ao chão e joga colares no solo. A mulher com cabelos presos por arranjos vermelhos segue seu caminho traçando uma meia lua. Descansa após o percurso. Remexe os quadris, o ventre e equilibra-se sob seus tornozelos fortes. Mostra o dorso demoradamente. Refaz o trajeto, tomando os adereços que distribuiu pelo carpete bege escuro. Em alguns momentos a estrutura física parece chamar mais atenção que a intenção artística.

Enquanto isto, luzes por trás de enormes biombos, servem de telas para a projeção de imagens circulares, simétricas e coloridas. Em alguns momentos, as imagens se dispersam para logo após se reencontrarem.

Silêncio, impacto. Com botas de serviços gerais, pretas, bordas amarelas, marcha diante do público silencioso uma segunda atriz. Ela chega, trazendo à cabeça uma câmera acoplada. Seu caminhar é menos sinuoso que o da primeira. Percorre, em um gesto cônico, martela num compasso histérico, os bicos dos calçados no assoalho. Em movimentos circulares, ganha o palco. De súbito, descalça-se resoluta e pede um sapato a platéia, calça-se. Ainda em uma espécie de frenesi, com feixes de agulhas nas mãos, apresenta uma plástica exasperada.

Neste enredo, ao longo da perfomance escuta-se uma lista de nomes de mulheres notáveis, inspiração daquela segunda fase. As citações remetem à mulher mais politizada: Simone de Beauvoir, Tarsila do Amaral, Maria Bonita, Frida Kahlo, Cleópatra, dentre outras.

Ainda o som, a inquietude, depoimentos, vozes. Ecos. Uma almofada espetada de agulhas chama a atenção. Espeta-as uma a uma. De novo, o som de pássaros, do mar e a iluminação trazem uma atmosfera diáfana que sugere um percurso ao inconsciente.

Uma terceira mulher ocupa o palco com mais roupas que as outras. Explora o espaço com movimentos que lembram o Kabuki, arte de dança japonesa, o Teatro Nô que se utiliza de cantos e histórias (tradicionalmente exercido com poemas e histórias budistas), gêneros tradicionais do teatro oriental.

A mulher velha representa o ancião que há em nós. Como se fosse um ser feminino encantado, das florestas, está em todos os cantos, nos sons naturais, nas imagens projetadas nos movimentos, na ausência dos sons urbanos, em gestos e pensamentos.

Entrevisto por trás das rendas brancas, os atores banham-se com lama em uma cumbuca, utilizando recursos do Teatro de Sombras. Antes disto, a platéia recebe sopros e baforadas da intérprete que, como inspirada em alguma entidade xamânica, termo originário de nativos da Sibéria para designar espíritos ancestrais, roga aos povos da floresta a cura e a liberdade para o exercício de nossos papéis com civilidade e conhecimento dos elementos que possuímos.

Em conversa com a equipe do Almanaque Alagoas, uma das intérpretes do espetáculo falou sobre o processo de criação: “Num dado momento a marcação é a expressão do feminino em consonância com as fases da lua. A lua nova é a mulher bebê, a lua cheia, a mulher fértil; a crescente, a mulher jovem; a minguante, a mulher idosa”. A idéia do espetáculo veio em forma de miragem. “Essa figura xamã que apresento no espetáculo, foi quem me orientou sobre como realizaríamos tudo isso, - como num sonho - e as coisas foram acontecendo até chegarmos aqui”, afirma Valéria.

Em Desnuda, o cenário nada austero favorece a entrada e saída de atores e público e também para as projeções produzidas nas molduras de madeira e linhas. O grupo consegue enfim, em um quarto momento, misturar as três dançarinas e deixar ao espectador espaços de reflexão sobre o Ser mulher. Uma espécie de Fio de Ariadne descontraído e sem uma lógica rígida.

“Vivenciar os ensaios, conviver com Charlene Sadd, Mary Vaz e Valéria Nunes foi uma experiência singular. A partir desta construção coletiva foi que pude trabalhar o figurino e a cenografia do espetáculo”, falou Synara Holanda, responsável pela cenografia, figurino e também por parte da produção do espetáculo.

Segundo a intérprete corporal, professora e dançarina Valéria Nunes, “o processo criativo se deu individualmente, para cada atriz”. Havia uma proposta e nela foram escritos os movimentos. “Na verdade, não existe uma marcação exata de passos ou movimentos decorados, mas uma proposta textual, uma intenção apoiada em elementos sonoros e visuais”, declarou a intérprete.

“Algumas músicas são inéditas e produzidas por alguns amigos”, finalizou o ator e diretor Glauber Xavier.

O evento contou com mais pessoas que o esperado. Esta foi a última de uma série de quatro apresentações, sendo as três primeiras nas cidades de Penedo, Mar Vermelho e Viçosa. O grupo não informou ainda quando será a próxima aparição.

FICHA TÉCNICA:

Coordenação: Valéria Nunes.

Interpretes Criadoras: Charlene Sadd, Mary Vaz e Valéria Nunes.

Trilha Sonora, Vídeos e Iluminação: Glauber Xavier.

Preparador Corporal (Solos de Mary e Charlene): Jadiel Ferreira.

Produção Executiva: Udson Pinheiro.

Assistente de Produção, Figurinista e Cenografia: Synara Holanda.

Fotógrafa: Renata Marques.

Para mais informações, entre em contato através de: projetodesnudarse@gmail.com, 9998-0447 e 8831-6005, ou acesse: http://projetodesnudarse.blogspot.com/ e http://www.saudaveissubversivos.org/

Raquel Brandão e Alexandre Cavalcante
Repórteres do Almanaque AL

Comentários

Fabiano
id5 soluções web Tengu Criação - Tengu :: Tecnologia id5