Comércio imobiliário restringe Festa da Lavadeira

29 / 04 / 11

Festa da Lavadeira, manifestação cultural nordestina que reúne anualmente mais de 20 mil pessoas, pode acabar por improbidade administrativa

O que se esperava ser um dia de festa, o 1º de maio poderá ser apenas de lamento e resistência para quem participa da Festa da Lavadeira, que acontece há 24 anos na Praia do Paiva, litoral sul de Pernambuco, município de Cabo de Santo Agostinho.

A implicação partiu de uma decisão do Ministério Público de Pernambuco (MPE/PE), que proibiu a armação de estruturas de palcos e sons no local. A organização da festa entrou com recurso contra a lei municipal, mas não obteve sucesso.

O evento recebe pessoas de várias partes do nordeste pode não acontecer este ano por conta da proibição também de vendas de bebidas, iluminação e aparato de segurança.

Localizada a aproximadamente 45 quilômetros de Recife, o evento reúne cerca de 20 mil pessoas no feriado do 1º de maio, dia do Trabalhador, oportunizando o encontro entre grupos de manifestação artístico-culturais com influências afrodescendentes e indígenas de vários estados do nordeste que levam expressões de dança e música de maracatu.

“A festa sempre foi um movimento espontâneo, uma manifestação simbólica, independente”, garante Eduardo Melo, um dos organizadores do encontro. A festa consolidou-se por sua importância de juntar pessoas em torno de motivos religiosos, como a música e a expressão religiosa.

De acordo com Melo, o maracatu, dança predominante no evento, herança trazida por negros, serve para lembrar hábitos deixados na África e alimentar a alma de um povo.

Durante a Festa da Lavadeira, a ênfase dada ao maracatu expressa sentimentos e modo de vida. Segundo historiadores, o auto dos congos, ou congadas, tem movimentos relacionados aos elementos da natureza, uma conversa entre o corpo e o fogo, a água, o vento, e a Terra.

Para se entender a festa, é interessante participar. A música é feita de percussões de toques rápidos, repetitivos e ritmados. A coreografia é feita em grupo, que vai de um lugar a outro como um cortejo, e em alguns momentos forma-se um círculo e dá-se continuidade a festividade a toque de abês, alfaias, caixas e gonguês.

Percebe-se que a proximidade com o mar, importante anfitrião da festa da lavadeira, fez com que a festa se referisse também a Yemanjá, símbolo religioso africano conhecida como “A Rainha do Mar”. O azul e o branco, cores bem utilizadas na manifestação, emprestam uma identidade visual à festa.

Como a época da Lavadeira acontece em períodos de chuvas, o que deixa o terreno movediço, escorregadio e fluido. Uma parte bem divertida da festa é quando os festeiros, com roupas com cores de Yemanjá, recorrem, após a festa, à lavandeira para retirar manchas.

Segundo o antropólogo Cristiano Oliveira, “oficialmente a festa não vai acontecer. Existe uma mobilização para que a festa não aconteça. O local sofre com especulação imobiliária e até ontem não se tinha definição se a festa irá acontecer em sua forma tradicional, ou haverá outras formas de manifestações. Os grupos de maracatu de Alagoas, como o afro-caeté, por exemplo, irão por conta própria”, afirma Cristiano.

Protesto de Alagoas

De acordo com o produtor cultural alagoano Josian Paulino, “a excursão está confirmada e haverá um protesto a favor da continuidade da festa”. A não sustentação oficial do evento desmobilizou alguns grupos alagoanos. Segundo Paulino algumas pessoas, já acostumadas com a festa, não sabem mais se vão.

A não distinção de cor, credo ou orientação sexual é um dos detalhes para o ajuntamento de milhares de pessoas de forma alegre e pacífica.

Eduardo Melo acredita que a realização do evento incomode os responsáveis pelos empreendimentos imobiliários planejados para a praia. Apesar de a Odebrecht ter apoiado o evento em 2008, trechos da área teriam sido interditados por funcionários da empresa em 2010.

As restrições feitas à festa já foram classificadas como preconceituosas e intolerantes em relação ao sentimento religioso pelo Governo de Pernambuco em relatório de março de 2010, época em que organizadores e participantes denunciaram tentativas de sabotagem contra o evento.

Serviço

Para ir à Praia do Paiva e assistir como será o movimento, pode ligar e agendar a ida com Cristiano. O valor da passagem, ida e volta, é de RS 45,00 por pessoa. Para mais informações: (82) 8801-4265 ou 8845-4068.

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