Hermeto Pascoal se irrita com público em show

24 / 06 / 11

"Eu dou porrada em vocês, seus filhos da puta. Não sou contra pagode, mas esse pessoal aí só sabe escutar isso", gritou o músico

“A cidade está no homem/ quase como a árvore voa/ no pássaro que a deixa.” Os versos de Ferreira Gullar, extraídos do “Poema sujo”, estavam involuntariamente implícitos nas palavras de Hermeto Pascoal no camarim da Lona Municipal de Bangu (que leva seu nome), onde não pisava havia sete anos. Desde que, desencantado com a violência do bairro onde morou por quatro décadas, trocou o mítico casarão familiar-musical em Jabour (localidade banguense outrora bucólica) por um pequeno apartamento em Curitiba, onde vive hoje com a segunda mulher, a jovem cantora Aline Morena, morena que o acalentou.

– Quando a gente sai de um lugar, continua lá espiritualmente. Vendemos a casa, e dividi o dinheiro com a família. Mas a música que se fez lá, a essência, não se vende nem se compra. É eterna e vem de todas as galáxias, de todos os mundos. A música que está na casa continua em nós, em Bangu, em Senador Camará, no Japão. Bangu é o mundo. Eu nunca vou sentir falta porque eu nunca deixo o espaço. O espaço vai junto com a alma onde quer que a gente esteja – prometeu o albino alagoano de Olho d’Água, barbas brancas, camisão geometricamente estampado, rabo de cavalo e chapéu panamá antes de entrar no palco.

Arquibancada e pista estavam lotadas por umas quinhentas e tantas pessoas na noite de anteontem para o concerto de aniversário organizado pelo percussionista Fábio Pascoal, filho de Hermeto. Formado mais por aficionados da música do gigante de Jabour, jovens discípulos, família e algum povo de Bangu (a Zona Sul simplesmente não deu as caras), o público do homem que tocou com Miles Davis e é aclamado no mundo inteiro contava nos dedos músicos consagrados: só o saxofonista Mauro Senise, o pianista e arranjador Gilson Peranzzetta e, da nova geração, o bandolinista Hamilton de Holanda foram prestigiá-lo. Promessas de participações especiais, Toninho Horta, Joyce e Guinga não foram vistos nas imediações. Dos três presentes, Senise e Peranzzetta deram o bolo (no mau sentido), o que não seria tão grave se Hermeto tivesse sido avisado. Brutal constrangimento para o aniversariante, que ficou quase dez minutos chamando os dois depois de apresentá-los como “um dos maiores pianistas do mundo” e “um saxofonista que toca até de cabeça para baixo”. Quando alguém na banda gritou para Hermeto que eles haviam saído, o Campeão, como é chamado, apoiou-se no sarcasmo:

– Eles devem ter ido assistir ao jogo do Santos. E a gente aqui vai fazer música – despistou, e saiu a tocar. Foi surpreendido por Hamilton de Holanda, único que honrou o compromisso num solo heroico de bandolim em meio a harmonias de outro mundo.

Hermeto, entre um copo de vinho e outro brindado com a audiência, esteve irritado boa parte do show, que começou duas horas atrasado, perto das 22h, com um incrível quarteto de canos afinados, empunhados pelos músicos no centro da pista. O clima de festa dividiu o público entre a lona e a parte externa, onde o pessoal conversava a altos brados. Hermeto até tentou pedir silêncio na base de tiradas de humor ou chamando a atenção para a oportunidade que se tinha, ali, de ouvir música de alta qualidade, mas, ao perceber que era inútil, perdeu as estribeiras, arrancando urros dos fiéis:

– Eu dou porrada em vocês, seus filhos da puta. Não sou contra pagode, mas esse pessoal aí só sabe escutar isso.

Até que ponto o público era culpado? – eis a questão. As portas da lona ficaram abertas, e o bar funcionando, com cerveja, caldo de aipim com carne seca, salgados e batatas fritas quentinhas, num show de quatro horas. A virtuosa banda que acompanha Hermeto, liderada pelo veterano baixista Itiberê Zwarg, vem construindo um padrão em que todos os temas são acompanhados pela voz afinada, culta, mas estridente de Aline, ao passo que Hermeto, aos 75 anos, por força da idade ou por opção, limita-se hoje a ser um mestre de cerimônias que, além do piano elétrico-base, dá uns requebros de corpo ou, em melhores momentos, puxa do público coros afinados para suas harmonas lindamente tortas (emocionando-se com a musicalidade geral da nação). Um recurso que, contudo, usa em excesso e que hoje praticamente substitui suas performances geniais de flauta, clarineta (na bacia…), escaleta, sanfona de oito baixos etc. Na única vez em que empunhou a flauta-baixo para o clássico número do “Brasileirinho” com a voz dobrada, tocou só um compasso, e quando tentou tirar som de uma bomba de encher balões (coisa que fazia magicamente anos atrás) a gritaria lá fora o fez desistir.

Não que a banda Mestre dos Sons, formada também por Márcio Bahia (bateria), Vinícius Dorim (saxes e flautas) e o espetacular André Marques (piano) não seja digna de interesse: ao contrário, a formação correu o mundo em 2010, encantando os públicos de Tóquio e Nova York, em turnês que incluíram Colômbia e Israel. Os músicos jovens da orquestra de Itiberê – meninas e rapazes formados no idioma de Hermeto sob regime rigoroso – são um exemplo de prodígio e sobrevivência musical.

Mas não passa despercebida a frustração do público, mesmo o fiel, que ficou até o fim, ao ver Hermeto assim contido naquilo que fez dele talvez o maior instrumentista vivo do mundo: seus solos, sua criação ao vivo, seus “passes” musicais, seus arroubos longos de piano. A última vez em que Hermeto pôde ser generoso com o instrumental de sua cozinha (citando Guinga e Aldir Blanc) e o público foi numa histórica apresentação, em 1999, no Espaço Sesc, em Copacabana, lançando o disco “Eu e eles”, que, como diz o nome, trazia o Bruxo a sós com seus multi-instrumentos. É importante lembrar de momentos assim (ou dos shows no Circo Voador), ou de experiências audiovisuais como a “Sinfonia do Alto Ribeira”, de seus Hammonds com gotas de caverna, dos batuques em água de Rio. É uma forma de prestar homenagem ao aniversariante trazendo de volta os maiores atributos do mito que formou o espírito de toda uma nova geração, mas cuja arte pessoal vem deixando saudades. Em Bangu e no mundo.

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