Volney Rebelo escreve ‘Revolução’ sobre a Ditadura Militar

24 / 08 / 11

Durante a Ditadura Militar, a Polícia Federal e o Exército torturavam com pressões psicológicas irresistíveis causando danos morais irreversíveis.

Nasci no final dos anos 50, precisamente em 1958, no final do ano, em Outubro, dia 02. O Brasil estava absolutamente na órbita de influência norte-americana. A sociedade brasileira estava ‘americanizada’. A juventude bebia Coca-Cola, entretanto, lá para as bandas “da Viçosa” em Alagoas, meu avô materno fabricava a cajuína, um tipo de refrigerante deliciosamente adoçado com mel de caju e engarrafado em pequenas garrafas de vidro com tampa de metal forrada com cortiça. Existia a Crush, Grapette e outros a base de cola, porém, a nossa cajuína, a nossa caçula, “a caçulinha” era imbatível.

Tomávamos a caçulinha São Luiz todos os dias, e não comprava coca cola porque o sabor da caçulinha era verdadeiramente muito mais palatável. Os revolucionários brasileiros, exauridos por golpes armados, nasceram com esta forte tendência a defender a nossa cultura e costumes. Nosso referencial para tomar o poder era a Luta Armada. A década de 60 até o final, as crianças e adolescentes convivemos com invasões em nossos domicílios, a qualquer hora do dia ou da noite, pelos órgãos de repressão, os miseráveis dos DOPS, da Polícia Federal e os ditadores do Exército Brasileiro.

Era muito comum, à época, ouvir crianças dizer que odiava “polícia”. A famosa Rádio Patrulha já prendia batendo, os torturadores do DOPS, usavam o ‘pau de arara’, choques elétricos e os mergulhos nos tanques de água podre. A Polícia Federal e o Exército torturavam com pressões psicológicas irresistíveis causando danos morais irreversíveis. Roubava nossos livros, nossos manuscritos, nossa liberdade de apreender conhecimentos. Tudo era proibido e esta tortura física, principalmente com os que defendiam a liberdade, transformava-se em tortura social e marcando profundamente toda a nova geração.

“Não pode falar sobre o governo. Não pode falar sobre o governador. Não pode falar sobre o soldado. Não pode falar sobre a rapariga do soldado”. Enfim, a crítica dialética era banida da face da terra brasilis. E essa nova geração lutava contra essa censura imposta pelo regime. Nunca aceitamos a Ditadura Militar. Jamais fomos ‘americanalhados’. Jamais aceitamos a injustiça. O combate estava determinado em nossas vidas desde a primeira infância, quer seja por influência da tomada do poder pela liberdade, quer seja pela luta por igualdade ou simplesmente pela fraternidade entre os povos.

O projeto marxista era a nossa bandeira, vermelha, fecunda. O pipocar das metralhadoras era o nosso grito de guerra, a ditadura, uma muralha podre. O treinamento de guerrilha em Rondônia, no Araguaia, Caparaó, ou Palmeira de Fora, transformava adolescentes em jovens revolucionários. Estas são as minhas lembranças da luta contra uma ditadura instalada em meu País. Hoje o Brasil é vermelho, vermelho rubro, vermelho fecundo, livre, igual e soberano. Portanto, jovem brasileiro amai nossa terra, nosso povo, nossa cultura, e fundamentalmente, o estado democrático que conquistamos às duras penas, tendo muitas das vezes que “enrijecer, mas sem perder a ternura, jamais”, como diria o camarada revolucionário Ernesto Che Guevara.

Marechal Deodoro/AL, 23 de Agosto de 2011.

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