Morre o compositor Aldir Blanc, aos 73 anos

04 / 05 / 20

Ele é autor de vasta obra musical e literária, como 'O Bêbado e a Equilibrista', 'Resposta ao Tempo' e 'Linha de Passe'

O compositor e escritor Aldir Blanc Foto: Leo Martins / Agência O Globo

RIO — Autor de versos memoráveis da música brasileira, cronista das tristezas e alegrias do país, Aldir Blanc morreu nesta segunda-feira, 4 de maio, aos 73 anos. Com infecção generalizada em decorrência do novo coronavírus, Aldir estava internado no CTI do Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel, desde o dia 20 de abril.

O compositor deu entrada no CER Leblon, no dia 10 de abril, com infecção urinária e pneumonia. Ele chegou a ser entubado em uma sala da unidade de saúde por falta de vagas em UTI. Apenas no dia 20, a família conseguiu transferi-lo para um leito de terapia intensiva no Pedro Ernesto.

A entrevista:Aos 70 anos, Aldir Blanc responde a perguntas de Elza Soares, Bethânia e outros artistas e amigos

Aldir Blanc Mendes nasceu no Estácio, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, no dia 2 de setembro de 1946. Curioso e observador, logo se embrenhou pelos encantamentos das ruas, dos tipos humanos e das manifestações culturais de sua cidade, cultivando suas principais paixões desde cedo: o futebol do Club de Regatas Vasco da Gama, o samba da Acadêmicos do Salgueiro, a vida boêmia, as pequenas e deliciosas histórias do cotidiano, a visão crítica e ácida sobre política e desigualdades sociais, e a poesia, que começou a escrever aos 16 anos.

A VIDA E OBRA DE ALDIR BLANC EM IMAGENS HISTÓRICAS
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O compositor e escritor Aldir Blanc em seu aniversário de 70 anos, em 2016 Foto: Leo Martins / Agência O Globo
O compositor e escritor Aldir Blanc em seu aniversário de 70 anos, em 2016 Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Tido como um dos maiores letristas da MPB, Aldir Blanc se formou em medicina com especilização em psiquiatria, mas abandonou a carreira para se dedicar à música Foto: Leonardo Aversa : Leo Aversa / Infoglobo
Tido como um dos maiores letristas da MPB, Aldir Blanc se formou em medicina com especilização em psiquiatria, mas abandonou a carreira para se dedicar à música Foto: Leonardo Aversa : Leo Aversa / Infoglobo
Blanc com seu maior parceiro musical, João Bosco, em registro de 1982 Foto: Luiz A. Barros / Infoglobo
Blanc com seu maior parceiro musical, João Bosco, em registro de 1982 Foto: Luiz A. Barros / Infoglobo
O compositor num sarau com a nata do samba carioca: Wilson Moreira (à sua esquerda), Luiz Carlos da Vila (à sua direita) e Moacyr Luz Foto: Leonardo Aversa : Leo Aversa / Infoglobo
O compositor num sarau com a nata do samba carioca: Wilson Moreira (à sua esquerda), Luiz Carlos da Vila (à sua direita) e Moacyr Luz Foto: Leonardo Aversa : Leo Aversa / Infoglobo
Vascaíno fanático, ao lado do também torcedor cruzmaltino Paulinho da Viola Foto: Henrique Sodre / Infoglobo
Vascaíno fanático, ao lado do também torcedor cruzmaltino Paulinho da Viola Foto: Henrique Sodre / Infoglobo
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Aldir Blanc com o pai, Ceceu, e a filha Mariana Blanc, em 2004 Foto: Fábio Rossi / Infoglobo
Aldir Blanc com o pai, Ceceu, e a filha Mariana Blanc, em 2004 Foto: Fábio Rossi / Infoglobo
Bom de copo, o músico cantou sobre a boêmia em canções como ‘Me dá a penúltima’ e ‘Vida noturna’ Foto: Paulo Araujo / Agência O Globo
Bom de copo, o músico cantou sobre a boêmia em canções como ‘Me dá a penúltima’ e ‘Vida noturna’ Foto: Paulo Araujo / Agência O Globo
Rivais nos campos, mas parceiros na música: Blanc e Moacyr Luz são autores de clássicos como “Anjo da velha guarda” e “Saudades da Guanabara” (essa também com Paulo César Pinheiro) Foto: André Arruda / Infoglobo
Rivais nos campos, mas parceiros na música: Blanc e Moacyr Luz são autores de clássicos como “Anjo da velha guarda” e “Saudades da Guanabara” (essa também com Paulo César Pinheiro) Foto: André Arruda / Infoglobo
Como escritor publicou obras como ‘Porta de tinturaria’, ‘Uma caixinha de supresas’ e ‘Direto do balcão’ Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Como escritor publicou obras como ‘Porta de tinturaria’, ‘Uma caixinha de supresas’ e ‘Direto do balcão’ Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Aldir em brinde com Ruy Castro, Carlos Heitor Cony, Marcelo Madureira e Geraldinho Carneiro Foto: Marco Antônio Teixeira / Infoglobo
Aldir em brinde com Ruy Castro, Carlos Heitor Cony, Marcelo Madureira e Geraldinho Carneiro Foto: Marco Antônio Teixeira / Infoglobo
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Do encontro com João Bosco nasceram seus maiores sucessos como ‘O bêbado e a equilibrista’ e ‘Mestre sala dos mares’ Foto: Leonardo Aversa : Leo Aversa / Infoglobo
Do encontro com João Bosco nasceram seus maiores sucessos como ‘O bêbado e a equilibrista’ e ‘Mestre sala dos mares’ Foto: Leonardo Aversa : Leo Aversa / Infoglobo
27.11.1997 – GUSTAVO STEPHAN – JB TI – ALDIR BLANC COM OS NETOS E ISABEL DIEGUES. Foto: Gustavo Stephan / Infoglobo
27.11.1997 – GUSTAVO STEPHAN – JB TI – ALDIR BLANC COM OS NETOS E ISABEL DIEGUES. Foto: Gustavo Stephan / Infoglobo
Em 1966, Aldir ingressou na faculdade de Medicina, especializando-se na área de psiquiatria. Mas abandonaria a carreira de vez em 1973, um ano depois do lançamento de “Agnus sei”, parceria abre-alas de sua obra com João Bosco pelo projeto Disco de Bolso da revista “O Pasquim”. O lado A do disco, dedicado a um nome consagrado, trazia “Águas de março”, de Tom Jobim, marcando uma simbólica passagem de bastão para a nova geração da MPB.

O frasista Aldir Blanc: ‘Sou rigorosamente ateu, cético, cínico e escroto, nessa ordem’

O encontro com Bosco representou um casamento perfeito: de um lado, o rico lirismo do letrista; do outro, a sofisticação rítmica e harmônica do violão e das melodias do então desconhecido músico mineiro. Ao lado dele, Aldir construiria uma das mais prolíficas e contundentes parcerias da história da música popular em todo o mundo.

Aldir Blanc e João Bosco: Clássicos da MPB e separação histórica marcaram parceria

Juntos, escreveram clássicos como “Bala com bala”, “Caça à raposa”, “Linha de passe”, “Cabaré”, “Kid Cavaquinho”, “O mestre-sala dos mares”, “De frente pro crime” e “O bêbado e a equilibrista”, que, na voz de Elis Regina — uma das principais intérpretes do duo —, se tornou o hino pela campanha pela anistia.

‘Olha o Jão aí, gente!’: Leia texto de Aldir para o parceiro, que completava 70 anos

Em mais de 50 anos de carreira, todos dedicados às letras — seja como compositor, escritor ou cronista —, Aldir escreveu cerca de 500 canções, sem contar outras centenas nunca gravadas ou perdidas. Além de Bosco, criou músicas com nomes como Guinga, César Costa Filho, Jayme Vignolli, Hélio Delmiro, Djavan, Cristóvão Bastos (com quem fez o clássico “Resposta ao tempo”, sucesso na voz de Nana Caymmi), Edu Lobo e Sueli Costa.

Mas foi Moacyr Luz, parceiro a partir dos anos 1980, quem complementou sua poesia como apenas Bosco havia sido capaz. Juntos, eles escreveram dezenas de canções, entre elas, crônicas apaixonadas e agridoces sobre a cidade. Da obra de Aldir, aliás, o Rio emerge em canções como “Centro do coração”, “Só dói quando Rio”, “Do um ao seis” e “Saudades da Guanabara” (com Paulo César Pinheiro), lançada por Beth Carvalho em seu disco homônimo de 1989, que viria a se tornar um standard em rodas de samba cariocas.

Com um apetite voraz pela palavra, tanto a cantada quanto a escrita, Aldir ainda lançou discos como “Rios, ruas e paraísos” (1984, com Maurício Tapajós), “Aldir Blanc — 50 anos” (1996) e “Vida noturna” (2005), publicou livros — “Rua dos Artistas e arredores” (1978), “Porta de tinturaria” (1981) e “Vila Isabel, inventário da infância” (1996), entre outros — e escreveu crônicas, críticas e artigos para veículos de imprensa como O GLOBO, “O Pasquim”, “Jornal do Brasil”, “O Dia”, a revista “Bundas” e o site “No.”.

Autor do livro “Aldir Blanc: resposta ao tempo”, o jornalista Luiz Fernando Vianna falou ao GLOBO em 2013 sobre a dualidade entre doçura e tristeza presente em toda a obra do compositor:

— É esse paraíso da infância, mas com a doença da mãe pairando, o inferno da adolescência, o novo paraíso da primeira juventude, o inferno da perda das filhas gêmeas (em 1974, as meninas prematuras morreram ao nascer)… Emoções intensas na vida de um cara sensível e obcecado por leituras. Deu o caldo que deu.

Por ocasião do lançamento do “Songbook” de João Bosco, o último produzido por Almir Chediak, em 2001, Aldir e Bosco retomaram o contato, a amizade e a parceria, que havia sido rompida em 1983.

Em 2005, na época do lançamento de “Vida noturna”, primeiro disco solo de Aldir como cantor, produzido por Moacyr Luz, seu outro principal companheiro de canções resumiu o porquê das grandezas de seus versos:

— Ele observa o mundo que está em volta dele, a vida que está acontecendo e nada escapa ao Aldir — disse ao GLOBO João Bosco. Ele faz isso com um brilhantismo de quem não teme a morte. Canta a vida o tempo todo e só utiliza a morte quando precisa dela para fazer um verso. A morte para ele é o trecho de uma calçada onde ele cai. A morte coincide com o paralelepípedo e é apenas um detalhe do cenário. Ninguém mais consegue escrever com essa total liberdade de alguém que não teme nada.

Nos últimos anos, Aldir, que sofria de diabetes, vivia recluso em seu apartamento, na Tijuca. Distante da bebida que fez companhia em tantos momentos, ele se dedicava a filhas e netos com vigor. O envelhecer gerava reflexões divertidas e bonitas, como era bem de seu feitio. Em 2016, quando fez 70 anos, disse ao GLOBO que chegar a essa idade era “como ser atropelado por um caminhão-cegonha que, em vez de transportar carros, transporta guindastes e tratores. Difícil levantar no dia seguinte”.

Um ano depois, também ao GLOBO, ele resumiu a relação que tinha com sua maior musa inspiradora:

— Sem a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro não existiria nenhum compositor popular chamado Aldir Blanc. Devo tudo a ela.

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