Morre o jornalista Lautheney Perdigão, aos 86 anos

18 / 08 / 21

Criador do Museu dos Esportes, ele estava internado desde a semana passada e faleceu na terça-feira (17/8), de problemas cardíacos, aos 86 anos

Autor: Ricardo Rodrigues

Alagoas perde seu ‘garoto do placar”: morre o jornalista Lautheney Perdigão

Criador do Museu dos Esportes, ele estava internado desde a semana passada e faleceu na terça-feira (17/8), de problemas cardíacos, aos 86 anos

Conheci Lautheney Perdigão quando fui fazer uma matéria com ele sobre a o clássico das multidões, que tinha virado clássico dos tostões, numa partida de estádio praticamente vazio, entre CSA e CRB, no final da década de 80. A matéria era para a revista Última Palavra, do saudoso Noaldo Dantas e que tinha como editor também saudoso Dênis Agra.

Cinco anos depois, o mestre Lau me ajudou a escrever sobre o Estádio Rei Pelé para o jornal O Estado de São Paulo. Era minha primeira matéria sobre futebol, como correspondente do Estadão em Alagoas, dias antes do jogo amistoso entre a Seleção Brasileira e Seleção Mexicana. A partida marcou a reabertura do Trapichão, no dia 8 de agosto de 1993, e terminou com o marcador de 1 a 1.

Até então, só conhecia o mestre Lau das suas crônicas publicadas nos jornais, dos livros escritos sobre o futebol alagoano e da sua fama de enciclopédia ambulante da nossa paixão nacional. Mas, para a minha surpresa, ele já me conhecia e fez questão de lembrar que foi amigo dos meus pais. Os dois se conheceram quando namoravam duas amigas de Murici, com quem se casaram e constituíram família.

“Fui amigo do seu pai Arlindo, no final dos anos 50”, contou Lauthenay, conversando comigo na sala de sua casa. “Eu e ele, toda sexta-feira, pegávamos o trem na estação de Maceió e íamos para Murici, porque as nossas namoradas moravam lá e eram amigas”, contou nosso “garoto do placar”. Meu pai namorava minha mãe e Lau dona Augusta, com que se casou e teve três filhas.

Na época, meu pai trabalhava como conferente da Cooperativa dos Usineiros e Lauthenay era bancário do Banco do Nordeste, mas já se destacava como cronista esportivo, escrevendo para jornais e comentando as partidas de futebol para as emissoras de rádio. A amizade entre eles durou a vida inteira, sempre que se encontrava comigo, mestre Lau perguntava por meus pais.

No lançamento do livro, “Dom Lauthenay um Quixote do Esporte Nacional”, escrito pelos amigos jornalistas Mário Lima e Wellington Santos, em novembro de 2019, eu estava lá, para prestigiar aquele acontecimento editorial e dá um abraço no velho amigo. Na oportunidade, dona Augusta, agora viúva do mestre Lau, perguntou por minha mãe, dona Maria José.

CONTADOR DE HISTÓRIAS

Entre as histórias que o mestre Lau contava, uma delas deu título a matéria que eu fiz para a “Última Palavra”, sobre o clássico CSA e CRB, em 1988. À época, os dois times estavam em crise e a torcida praticamente não compareceu ao estádio Rei Pelé, protagonizando uma renda pífia, digna de clubes da terceira divisão. A renda daquele jogo conseguiu ser pior que a partida entre CSA e CRB, quando os dois times boicotaram um clássico e se recusaram a entram em campo, para uma partida que quase termina em WO.

Histórias como essas, mestre Lau adorava contar e mostrar seus arquivos implacáveis, que ele acabou doando para o Museu dos Esportes, que ajudou a criar e foi seu diretor. No museu, ele criou também o Cantinho da Saudade, para relembrar a trajetória dos desportistas alagoanos, e a “Calçada da Fama”, onde estão a marcas dos pés de craques que marcaram época, a exemplo do Rei Pelé.

Historiador, radialista, cronista esportivo, jornalista e escritor, Lauthenay Perdidão era um apaixonado pelo futebol, Mais do que isso, era um pesquisador dedicado, que colecionava textos, imagens e gols dos principais escretes nacionais. Fez da crônica esportiva a sua trajetória de vida, contando com riqueza de detalhes a história dos nossos times e craques, de todas as épocas.

Sofria de problemas cardíacos e estava internado desde a quinta-feira,12 de agosto. Faleceu na última terça-feira, 17 de agosto, aos 86 anos, deixando a esposa Augusta e três filhas, que lhe deram netos e bisnetos. Além de bancário e jornalista, Lautheney também foi bom de bola, jogou na base do CSA, time pelo qual torcia.

Na mídia alagoana, Lautheney foi um atuante cronista esportivo no rádio e nos jornais alagoanos, onde editou por muito tempo, no Jornal de Alagoas e na Gazeta, uma importante coluna, com o subjetivo nome de “arquivos implacáveis”. Nela, sempre teve a coragem de mostrar as mazelas do futebol e foi defensor intransigente do esporte em todas as suas modalidades.

Seu acervo preciso, com informações que fazem jus ao apelido de “garoto do placar”, ele doou ao Museu dos Esportes Edvaldo Santa Rosa, instalado no Estádio Rei Pelé e inaugurado em 1993. Um local que era a extensão de sua casa, cuidando com zelo, paixão e profissionalismo. O nome do museu foi ele quem deu, numa justa homenagem ao craque Dida, tricampeão pelo Flamengo, no final da década de 50, e campeão do mundo pela Seleção Brasileira, na Copa de 1958, na Suécia.

A morte de Lautheney deixa uma lacuna enorme na crônica esportiva alagoana e enlutados todos aqueles que amam o futebol, independentemente de cores de uniformes e paixões de torcedores. Mestre Lau fez escola, era uma figura querida e admirada por todos. Que Deus o tenha.

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