Na COP26, indígena brasileira critica ‘mentiras vazias e promessas falsas’

04 / 11 / 21

Ativista Txai Suruí, de 24 anos, citou morte de amigo e disse que povos indígenas precisam estar nas decisões sobre as mudanças climáticas

Sem a presença do presidente Jair Bolsonaro, o palco principal da COP-26, em Glasgow, recebeu nesta segunda-feira uma representante brasileira: a jovem ativista indígena Txai Suruí, fundadora do Movimento da Juventude Indígena em Rondônia, que defende o povo paiter suruí da Amazônia. Em seu discurso, em inglês, Txai criticou “mentiras vazias e promessas falsas” e, sem citar diretamente o governo brasileiro, disse que os povos indígenas precisam estar nas decisões sobre as mudanças climáticas.

— Tenho apenas 24 anos, mas meu povo vive na Floresta Amazônica há pelo menos seis mil anos. Meu pai, o grande chefe Almir Suruí, me contou que devemos ouvir as estrelas, a lua, o vento, os animais e as árvores. Hoje, o clima está esquentando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo e as nossas plantações não florescem como no passado. A Terra está falando: ela nos diz que não temos mais tempo — disse ela no discurso, que durou três minutos, como todos os de hoje. — Precisamos de outro caminho, com coragem e mudanças globais. Não em 2030, 2050, mas agora.

Com trajes tradicionais e o rosto pintado, a ativista também citou a morte de Ari Uru-eu-wau-wau, em abril de 2020, e exigiu proteção às lideranças indígenas que são mortas em defesa de suas comunidades.

 

— Enquanto vocês fecham os olhos para a realidade, o defensor Ari Uru-eu-wau-wau, meu amigo desde criança, foi assassinado por proteger a floresta — lembrou a jovem ativista, que também é estudante de Direito. — Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática. E devemos estar no centro das decisões tomadas aqui. Temos ideias para adiar o fim do mundo. Nos deixem acabar com as mentiras vazias e promessas falsas.

 

“Se não houver proteção aos territórios e direitos indígenas, também não haverá solução para a crise climática, porque fazemos parte dessa solução”, disse à AFP, por e-mail, Sonia Guajajara, chefe da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Abip). “Precisamos salvar urgentemente nossos territórios para proteger as vidas dos povos indígenas e o futuro de nosso planeta”.

De acordo com um relatório publicado em março pela Organização para Alimentos e Agricultura da ONU  (FAO), as taxas de desmatamento são significativamente mais baixas em terras indígenas protegidas.

Nesta segunda-feira, o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, anunciou, durante um evento no pavilhão brasileiro na COP-26, a revisão da meta brasileira de redução das emissões de gases causadores de efeito estufa. A meta passará de uma redução de 43% para 50% até 2030, mas não chega a compensar o retrocesso anunciado anteriormente.

O governo brasileiro vinha sendo criticado por mudar sua base de cálculo das emissões, o que lhe permitiria emitir mais com a mesma meta anterior, na chamada “pedalada climática“. Por isso, a delegação brasileira chegou a Glasgow pressionada para aumentar a ambição de cortes do país por causa da manobra contábil.

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