Balada do Natal, um conto poético do publicitário Walter Bezerra

07 / 11 / 23

A sete semanas no Natal de 2023, publicamos esse texto em homenagem ao aniversário de Nascimento do Menino Jesus

Autor: Walter Bezerra

A sete semanas no Natal de 2023, recebo nesta terça-feira, 7 de novembro, este texto do meu amigo publicitário Walter Bezerra, sobre o aniversário de Nascimento do Menino Jesus. Com ele, abrimos a nossa temporada natalina, de matérias, artigos e entrevistas. Valeu, ‘Pernoite’! – como nosso amigo Walter é conhecido pela turma dos anos 70/80 da Praça Treze de Maio, no bairro do Poço, em Maceió. 

 

Balada do Natal

 

Era Natal.

 

E um cristalino sentimento de esplendor e festa transbordava de alegria os corações pungentes dos que trabalham e amam verdadeiramente.

 

Havia os magos Baltasar, Gaspar e Melchior, cujas oferendas – mirra, incenso e ouro – refletiam a luz, a força e a realeza do Menino Jesus.

 

Havia Gabriel, Rafael e Miguel. Os sinos anunciavam os anjos, seres divinos, mensageiros celestiais, guardiões dos homens e servos perpétuos do Homem Lá de Cima.

 

Havia Rússia X Ucrânia, Israelitas X palestinos. As pessoas queriam livros em vez de insipiência; almejavam pão em vez de missa; desejavam paz em vez de guerra. Aliás, a guerra era a atitude imperialista mais cáustica, irracional, ambicionista, mesquinha, rudimentar, bárbara. Indigente, tirânica, cruel e repudiante da humanidade. Era tempo de praticar a comunhão, a justiça e a bondade. Era tempo de nascer e renascer. Era tempo de amabilidade e de celebrar o nascimento de Jesus de Nazaré, o caçador de homens, o libertador das almas oprimidas e exiladas.

 

Havia a Pequena Notável, Dóris, Dolores, Maysa, Dalva, Elis, Elizeth, A Divina, Cássia e Ângela Maria. “De repente, não mais do que de repente’, juntavam-se a elas as iluminadas Beth, Elza, Rita e Gal. Como não se contava com a ascensão não- autorizada daquelas divas, reservavam-se, para cada uma delas, uma canja: Andanças, A Carne, Ovelha Negra e Divino Maravilhoso. O paraíso tornava-se festa; a MPB, cântico.

 

Havia Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Raul, que, com seus abençoados e enlouquecidos instrumentos, idolatravam os ídolos, heróis, raízes, lendas, histórias e toda nossa irreverência romântica.

 

Havia Padim Cíço, Irmã Dulce e Frei Damião, que alimentavam e abençoavam a fé dos beatos, adoradores e romeiros, gente de leve fardo e branda via crucis.

 

Havia os adoráveis anarquistas Tolstói, Proudhon, Goldman, Malatesta e Oiticica, indivíduos de expressão, que idealizavam um mundo quimérico e fantástico, cuja sociedade humana funcionasse sem a presença sistemática e estrutural do estado e contra todas as formas de opressão, hierarquia, dominação e “sabe com quem está falando?”.

 

Havia ainda os admiráveis ateus Lichtenberg, Nietzsche, Sartre, Saramago, Freud e Sakharov, que fomentavam como crença existencial a ausência de entidades transcendentais na constituição da natureza humana. Somos ateus, céticos e niilistas, graças a Deus! Assim, definiam-se eles.

 

Havia os bêbados dos bares e botecos da vida, espaços de convívio etílico, refúgios inebriantes da euforia e da emoção. Eles estavam embevecidos de esperança, com seus desejos, necessidades e tolos prazeres de quem conscientemente menospreza a vida e venera a boemia.

 

Havia avós, pais, mães, irmãos, tios e primos Juntos, festejavam a família e, por osmose, cultuavam afeto, harmonia e generosidades. Estavam todos unidos, fraternos e solidários ao redor da mesa. Suplicavam a ternura, compartilhavam as preces e degustavam – cúmplices e sedentos – o vinho embriagante das celebrações mundanas.

 

Havia o professor, médico, vizinho, quitandeiro, dono do bar, porteiro, eletricista, barbeiro, frentista, faxineira, colega do trabalho, homem do peixe, amolador de tesoura e a moça do cafezinho. Todos comungavam gentilezas, direitos, respeito e diferenças, com espírito comunitário e de cooperação.

 

Havia, essencialmente, os amigos, esses seres indispensáveis, “os nossos chatos prediletos”, na boca do poeta gaúcho, e “o mais certo das horas incertas”, na canção do Roberto. Os velhos amigos a gente venera e embalsama; os novos a gente cultiva e envelhece.

 

Havia os homens partidos e os homens partidários. Com suas dores, ideários, astúcias, crenças e frustações, perpetuavam confrontos, sofrimentos complexos, competições e ambições. Homens partidos entenda-se aqui os eleitores, que se frustravam e se decepcionavam com suas escolhas eleitorais. Homens partidários leia-se políticos profissionais, estelionatários e ilusionistas, que não pagavam nem promessa a santo, imagine cumprir com seus compromissos demagógicos. E assim dizia Patativa, o poeta da roça:

 

“O que mais dói e o peito nos oprime,
E nos revolta mais que o próprio crime,
Não é perder da posição um grau.
É ver os votos de um país inteiro,
Desde o praciano ao camponês roceiro,
Pra eleger um presidente mau”.

 

Havia Pelé, Garrincha, Maradona, Cruyff e Beckenbauer. Todos exímios bailarinos e donos da bola. Fanatizavam torcidas, cores e paixões desenfreadas e infantilizadas. Melhor que torcer era apreciar a beleza do gol, seja pra que lado fosse. O importante era se jogar nas emoções, fazer a aposta e arriscar o placar: amanhã terá Brasil X Argentina!

 

Havia Maria, a Santíssima, Evita Perón, Marie Curie, Indira Gandhi, Beauvoir e Nise da Silveira, que, com a doçura de suas ações, desígnios e escrita, davam exemplo de Inteligência, competência, expertise e audácia. Mulheres-maravilhas, heroínas, guerreiras, empoderadas e cheias de graça. Antes de belas, lobas, feras. Todas elas cor de rosa choque!

 

Havia, saudosamente, Elvis, Lennon, Sinatra, Marley, Francisco Alves, Noel, Moreira, Cartola, Nelson, Cazuza, Russo, Science, Gonzaguinha e Erasmo. Diversos estilos e uma só nota: a música é um patrimônio universal, não tem pátria e nem língua; tem fãs e discípulos.

 

Havia o Hô! Hô! Hô! Sim, São Nicolau fazia-se presente! Principalmente ele, que era o dono da festa, o senhor do Natal, Trouxera consigo as renas, que transportam generosidades, brinquedos e doces para ofertar às crianças do mundo inteiro. Um olhar fraterno às crianças faz a diferença no futuro. Oscar Wilde vaticinava que “a melhor maneira de tornar as crianças boas é torná-las felizes”.

 

Havia os cristos desamparados, cristos desempregados, cristos moribundos, cristos debilitados, cristos meninos de rua, cristos sem-pai-e-sem-mãe, cristos sem pão, sem teto e sem circo, cristos sem leite e sem leitura, cristos sem rumo e sem rima, cristos sem esperança e sem fé e cristos sem Cristo. Sabíamos que a fila era grande e andava e que todos tinham direitos iguais, mas essas criaturas ‘cristos sem fé’ careciam mais, prioritariamente, da Divina Providência. Que fosse então feita a vossa vontade, Senhor!

 

Havia Beethoven, Bach, Mozart, Vivaldi, Chopin Tchaikovski, Villa-Lobos, Chiquinha, Piazzolla, De Lucia, Pavarotti, Marin e Nelson da Rebeca. Dó-ré-mi-fá-sol-lá-si! Eles, virtuosos, entonavam e compunham o desejado ’Concerto para a Humanidade’.Tan-tan-tan, Tan-tan-tan!

 

Havia Baudelaire, Camões, Neruda, Rimbaud, Bilac, Jorge de Lima, Bandeira, Coralina, Pagu, Meireles, Gullar, Vinicius, Drummond e outros tais de igual verve literária. Com seus versos inquietantes e irreverentes, eles idealizavam sonhos e conceitos, protagonizavam questionamentos e pariam sacadas esplêndidas, didáticas e revolucionárias, encantando, desconsertando e intrigando as mentes e os corações de seus seguidores. Deles, definia e romanceava Pessoa: O poeta é um fingidor… Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.

 

Havia Victor Hugo, Dostoiévski, Goethe, Brecht, Kafka, Poe e o eterno Machado, o de Assis. Seres imortais, absurdamente sapientes, figuras de outro planeta, de outras quebradas cognitivas.

 

Havia Picasso, Da Vinci, Rafael, Michelangelo, Van Gogh, Frida, Portinari, Volpi, Caravaggio, Monet, Miró, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral. Em precisas e expressivas pinceladas, eles desmoralizavam, com suas formas conceituais e simétricas, as convenções, os estereótipos e a estética, essa em todas as suas manifestações: indutiva, experimental e idealista. Pintavam a realidade e o imaginário, a felicidade e a tristeza, a riqueza e a penúria, o bem e o mal. Retratavam a natureza, viva ou morta. Derramavam, debochadamente, arte e cores sobre a existência e o mundo.

 

Havia Golias, Grande Otelo, Mussum, Dercy, Silvino, Jô, Chico, Goldberg e Jerry Lewis. Donos de um humor gracioso, refinado e único, arrancavam-nos risos e gargalhadas espontâneas e, às vezes, escandalosas.

 

Havia os youtubers, blogueiros e influencers, personagens digitais que nos faziam navegar na história bem recente quando, em 1989, um tal de Tim Berners-Lee inventou a Internet, ao criar a Word Wide Web, que significa, na tradução literal, ‘teia em todo mundo’. O ciberespaço, onde os internautas se conectavam ao mundo virtual, tornara-se a terra dos lacradores e cancelados. Quem arrasasse e mandasse bem, eram endeusados e festejados! Quem fosse podre que se quebrasse! A web e os memes não perdoavam. No âmbito da escala evolutiva, depois dos neandertais e denisovanos, o homo sapiens cedia o trono ao homo www.

 

Havia, eternamente, Camões, Shakespeare, Schopenhauer, Poe, Saint-Exupéry, Lobato, Chaplin, Anthony Quinn, Christophe Lee, Marilyn, Taylor, Fonda, Meryl, Meireles, Lispector, Graciliano, Gracindo, Glauber, Gilberto, Paulo Freire, Millôr e Lêdo Ivo. Dever cumprido, estavam todos completamente felizes, satisfeitos, orgulhosos e saciados. Cada um entregara de bandeja a preciosidade literária de seus textos e a riqueza cênica de suas monstruosas interpretações, para o pleno contentamento de sua vasta plateia ledora e cinéfila.

 

Havia Darwin, Einstein, Reich e Stephen Hawking: sapiência, erudição, conhecimento científico, descobertas históricas, invenções e inovações. Desenhavam a evolução; decifravam a existência; disseminavam a moral da história: viver é genial!

 

Havia, finalmente, o introspectivo Mário Quintana, que nos sussurrava: “Eles passarão…Eu passarinho!”

Amém…

Walter Bezerra

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *