Há 60 anos, Arnon matava a tiros senador no plenário do Senado

05 / 12 / 23

Pai do ex-presidente Fernando Collor atirou no inimigo Silvestre Péricles mas acabou matando o senador acreano José Kairala,, em 4 de dezembro1963

Autor: Ricardo Rodrigues/Repórter

Senador alagoano tentava acertar Silvestre Péricles, seu desafeto na política em Alagoas, mas acabou matando o colega do acreano, sem querer

 

A data 4 de dezembro de 1964 marca o tiroteio inédito no plenário do Senado Federal, em Brasília, que resultou na morte do senador acreano José Kairala e nas prisões em flagrante dos senadores alagoanos Arnon de Mello e Silvestre Péricles. Este fato histórico teve enorme repercussão nacional, mas pouco se ler nos livros de história e nas páginas da imprensa local, a respeito do crime. Na Gazeta de Alagoas e demais veículos da Organização Arnon de Mello o assunto é proibido. No restante da mídia, muito pouco é explorado ou lembrado. Talvez por isso, 60 anos depois desse assassinato no Senado, essa efeméride continua sendo tabu na história de Alagoas e muitos alagoanos não conheçam esse acontecimento marcante da história recente do Brasil.

No livro ‘Notícias do Planalto’, lançado em 1999, o jornalista Mário Sérgio Conti revela que no dia do tiroteio Arnon teria recebido a arma do crime, um revólver calibre 38, das mãos de dona Leda, que acompanhara o marido àquela sessão do Senado para ouvir seu primeiro discurso do ano. Eleito senador nas eleições de 1962 e assumido o mandato no ano seguinte, Arnon não usava o microfone do plenário do Senado desde o início daquela legislatura. Aquele seria o seu primeiro discurso do ano, por isso cercado de tantas expectativas. Não por acaso, ele estava acompanhado da esposa e do filho, Leopoldo, que também estava armado e tivera arma apreendida pela guarda parlamentar.

“Arnon havia reunido a família e avisado que discursaria no Senado. Havia se preparado também. Amigos e parentes foram recrutados para sua estreia tardia na tribuna. Chegaram em dois carros no estacionamento do Senado. Ao descer de um deles, Leda Collor deixou cair um revólver da bolsa. Um outro revólver foi apreendido com seu filho Leopoldo”, relata o Conti, com base nas informações contidas no livro escrito pelo jornalista alagoano Cláudio Humberto Rosa e Silva, ex-porta-voz de Collor.

“Silvestre foi ao Congresso acompanhado de um genro, e se jactava a um grupo de senadores antes da sessão: ‘Vou encher de balas a boca de Arnon de Mello assim que ele começar a falar’. Silvestre entrou antes. Desafiador, circulou pelo plenário e aboletou-se na sua poltrona. Sentado ao seu lado estava o suplente de senador José Kairala, um tipo simpático, um tipo simpático que presenteava os colegas com cesta de caju da sua cidade, Brasiléia, no Acre”, acrescenta Conti. O jornalista lembra que Kairala estava no seu último dia de mandato. Por isso, “instalara o filho, a mulher e a mãe na tribuna de honra para testemunharem a sua despedida”.

Munindo de uma máquina fotográfica, o filho do senador acreano queria bater uma foto do pai para guardá-la de lembrança, mas o tiroteio o plenário terminou atrapalhando seus planos. A bala vadiou quando Arnon começou seu discurso, por volta das 3 horas da tarde. “Senhor presidente, permita Vossa Excelência que eu faça o meu discurso olhando em direção do senador Silvestre Péricles de Góis Monteiro, que ameaçou me matar”, disse Arnon, sendo interrompido por seu desafeto.

– Crápula! – gritou Silvestre Péricles, a mão direita apontando para o inimigo e a esquerda estendida ao longo do corpo, segurando um revólver calibre 45 cano longo. Foi quando Arnon largou as folhas do discurso, sacou o 38 e disparou duas vezes em direção a Silvestre, que se jogou no chão, sem ser atingido. Uma das balas desferidas por Arnon acertou Kairala, que ainda chegou a ser levado com vida ao hospital de Base da Brasília, mas não resistiu ao ferimento e morreu, hora depois do tiroteio.

Silvestre ainda tirou matar Arnon, mas foi contido, na hora do tiro, pelo então senador João Agripino Filho que o segurou em tentou arranca-lhe o revólver. “O alagoano apartou o gatilho e o cão de revólver esmagou a falangeta de Agripino, que mesmo assim conseguiu imobilizar o colega”, relatou Mário Sérgio Conti. O jornalista lembrou ainda que, “levado para o hospital, ainda com vida, Kairala foi atendido por um cardiologista que estava de passagem por Brasília: Adib Jatende”.

Atendendo ao pedido do então presidente do Senado, Auro Moura, vários funcionários da Casa foram doar sangue para o senador baleado, mas pouco adiantou, Kairala faleceu naquela noite. O ex-candidato a senador por Alagoas, Afonso Lacerda, era funcionário do Senado na época e viu o tiroteio da galeria, onde estavam os familiares do morto. Ele lembra que foi chegou a se dirigir ao hospital e doou sangue para o senador ferido, poucas horas antes de anunciada a sua morte.

Lacerda lembra ainda que dias antes do tiroteio, o clima de animosidade já era grande no Senado. Tanto é que o presidente havia determinado que a guarda parlamentar ficasse de alerta e deu ordem para que todos fossem revistados, ao entrar no prédio do Congresso Nacional, “seja quem fosse”. Sabendo disso, temendo que o marido fosse revistado, dona Leda entrou no Senado com a arma do crime na bolsa dela.

Na época, Fernando Collor era estudante do Colégio São José, no Rio de Janeiro, e ficou sabendo do tiro que o pai deu no inimigo, mas acabou matando um inocente, naquela tarde, pelo noticiário do rádio. No dia seguinte, a notícia do tiroteio foi manchete em todos os grandes jornais do País. O colunista social Ibraim Sued, que escrevia para o Globo, estava de passagem por Brasília e cobrira o fato. Na sua matéria, ele se disse estupefato com aquela situação insólita: “Enquanto um senador se esvaia em sangue, o atirador era contido pelos colegas e o alvo da trama assassina dava risadas e dizia que seu desafeto além de corno era cego”. Arnon errara o tiro a menos de cinco metros de distância do alvo.

Saldo do tiroteio: Arnon e Silvestre presos; José Kairala morto aos 39 anos, no último dia do mandato, que ele assumira cinco meses antes, em substituição ao então senador José Guiomard Santos. O crime cometido por Arnon de Mello, que pretendia matar o senador Silvestre Péricles, terminou não dando em nada. O alvo foi solto no dia seguinte e o atirado pegou pouco mais de seis meses de prisão. Foi inocentado pelo Tribunal de Júri de Brasília e sequer perdeu o mandato. Pelo contrário, foi senador biônico, indicado pela Ditadura Militar.

O MORTO

Descendente de libaneses, natural de Brasiléia, no interior do Acre, José Kairala, era um comerciante modesto, mas muito admirado pela comunidade local. O prestígio levou o ex-governador do território e então deputado federal José Guiomard Santos a convidá-lo para ser seu suplente em sua candidatura ao Senado, a primeira da história do recém-criado Estado do Acre, que saíra da condição de território federal em julho de 1962 por iniciativa de lei de autoria do próprio Guiomard, apresentada sete anos antes.

Na época, a legislação eleitoral permitia que o mesmo candidato pudesse concorrer a dois cargos, um no Executivo (para o Governo), e o outro ao Senado. Guiomard perdeu a disputa ao Governo para o professor José Augusto de Araújo, mas sagrou-se senador mais votado com José Kairala como seu suplente.

O ALVO

Silvestre Péricles, um militar, ex-delegado e herdeiro de família com peso na política nacional, já havia mandado recado ao inimigo, por meio de outros senadores, que, se tecesse alguma palavra contra ele, seria morto ali mesmo, dentro do Senado. Repetia, em voz alta, na cafeteria da Casa, para que todos os funcionários e parlamentares presentes ouvissem, que encheria “de balas a boca” de Arnon. Pouco antes do início da sessão, Silvestre passou pela área reservada aos jornalistas e anunciou: “Vocês querem espetáculo, e vão ter.” O Péricles não sabia que Arnon de o elo também era de briga, era outro que andava armado no Senado.

O ASSASSINO

Antes de iniciar seu discurso na tribuna, Arnon de Mello ouvia de dona Leda para não aceitar provocações do Silvestre e que se o inimigo fizesse qualquer movimentação suspeita, puxasse a arma e atirasse antes. Afinal, o adversário o ameaças e havia dito aos colegas que iria matá-lo ali mesmo. Magro, Arnon de Melo esquiva-se do que seria o tiro fatal, saca a arma e mira o adversário e acaba acertando o senador acreano.

Kairala chegou a ser levado rapidamente ao Hospital Distrital de Brasília – atual Hospital de Base –, onde deu entrada às 15h45, indo direto para o centro cirúrgico, com os intestinos e a veia ilíaca trespassados. Recebeu 16 litros de sangue por meio de diversas transfusões. Muitos deles doados por senadores, deputados e funcionários da Casa, que correram para a unidade de saúde. Em vão. Kairala morreu às 20h05, na mesa de cirurgia.

Antes da sessão que terminaria em tragédia, a família Kairala estava na tribuna de honra do Senado: a mãe, o filho e a esposa do senador. Ele conversava com os três animadamente, no momento em que soou a campainha anunciando o início dos trabalhos. Mudou de cadeira por duas vezes. Escolheu a última fila do primeiro lance de cadeiras, diante da tribuna de honra. Até então, ele nunca havia sentado naquele lugar, mas era o melhor que convinha para a fotografia que o filho ia tirar. Em seguida começou a confusão que culminou no tiroteio que lhe tirou a vida.

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