Ricardo Rodrigues

Diplomação de eleitos não desarma palanques

Reaproximação dos Calheiros com Luciano Barbosa e mudanças no secretariado estadual são jogadas com vistas às eleições de 2022

O discurso do governador Renan Filho (MDB), segunda-feira da semana passada, na Associação dos Municípios de Alagoas (AMA), pedindo aos prefeitos eleitos e reeleitos, nas eleições de 2020, que desarmassem os palanques, mostra a preocupação do gestor com a governabilidade, mas tenta esconder uma prática política antiga: quando acaba uma eleição, o político com mandato já está pensando em outra.

No caso, nas eleições gerais de 2022, que parecem distantes, mas em 2021 já começam as articulações para formação das chapas majoritárias, que irão disputar uma vaga no Senado e o governo do Estado.

Com a prestação de contas encerrada no dia 15 e a diplomação dos eleitos no dia 17, o TSE praticamente deu como encerrada as eleições de 2020. No entanto, candidatos que perderam prazo e tiveram candidaturas impugnadas seguem tentando a regularização junto à Justiça Eleitoral.

Isso quer dizer que nem todo candidato eleito foi diplomado; e mesmo os diplomados ainda podem ter o mandato cassado, caso o registro da sua candidatura tenha sido negado, por alguma denúncia ou irregularidade. No mais, o mapa eleitoral está traçado e MDB continua sendo o partido com mais prefeitos no País.

Em Alagoas, o partido perdeu a disputa na capital, mas ganhou na maioria dos municípios alagoanos, entre eles Arapiraca, a maior cidade do interior do Estado. Sob o comando do senador Renan Calheiros (MDB), que divide seu tempo com questões nacionais e outras locais, o partido tem no governador Renan Filho, em seu segundo mandato, a maior expressão política da atualidade.

É ele e o pai que vão construir uma candidatura à altura do legado deixado pela atual gestão. O nome ainda é uma incógnita, mas deve ser trabalhado a partir da mudança no secretariado, no início do ano que vem.

Outro sinal de preocupação do grupo governista com 2022 ficou evidenciado no episódio envolvendo o vice-governador de Alagoas e prefeito eleito de Arapiraca, Luciano Barbosa (sem partido). Ele foi expulso do partido e teve sua candidatura impugnada, porque desobedeceu a compromissos do grupo e saiu candidato à revelia do Diretório Estadual do MDB de Alagoas, presidido pelo senador Renan Calheiros.

A reaproximação só veio quando o TSE reconheceu a legitimidade da candidatura de Luciano e os Calheiros perderam a disputa pela prefeitura de Maceió, com a derrota de Alfredo Gaspar de Mendonça (MDB) e a vitória do deputado federal João Henrique Caldas, o JHC (PSB).

Fizeram as “pazes” no começo do mês – depois de muita conversa e uma carta do partido reconhecendo a legitimidade da vitória de Luciano –, mas a briga deixou sequelas, que só o tempo dirá se foram ou não dissipadas. A partir da posse de Luciano, fica em aberto o cargo de vice-governador.

Com isso, em qualquer afastamento oficial do governador Renan Filho, o comando do Estado passa a ser exercido pelo presidente da Assembleia Legislativa, deputado estadual Marcelo Vitor, ou pelo presidente do Tribunal de Justiça, Tutmés Airan. Os dois, inclusive, já assumiram o governo, na ausência de Renan Filho e seu vice Luciano Barbosa.

MDB continua dando as cartas em Alagoas, mas perde espaço no ranking nacional

O MDB do senador Renan Calheiros foi o partido que mais elegeu prefeitos nas eleições municipais de 2020, no Brasil. Em Alagoas, não foi diferente. O partido continua liderando o ranking de prefeitos. Perdeu a disputa em Maceió, mas elegeu maior números de prefeitos no interior. A 2ª posição em número de prefeituras é do PP. Juntos, MDB e PP detêm 66 das 102 prefeituras do Estado. Os emedebistas têm apenas oito prefeituras a mais.

Apesar de continuar liderando o ranking nacional de prefeituras, o MDB encolheu: havia conquistado 1.044 em 2016 e agora tem 784. O PP e PSD foram os partidos que mais crescem em 2020. Agora, eles ocupam 2ª e 3ª posições no ranking em número de prefeituras. O PP aumentou o número de prefeitos eleitos de 495 para 685. Na terceira posição do ranking, o PSD pulou de 538 para 654.

O PP – partido de Benedito de Lira e seu filho Arthur Lira – cresceu, aumentou o seu cacife e deve articular uma chapa de oposição ao governo do Estado nas eleições de 2022. Caso continue aliado aos tucanos, como aconteceu na vitória de JHC em Maceió, o PP pode indicar o vice do senador Rodrigo Cunha (PSDB) e disputar a sucessão de Renan Filho com chances reais de eleger o próximo governador de Alagoas.

Depois de eleger Biu de Lira prefeito da Barra de São Miguel, o balneário mais badalado de Alagoas, o PP se prepara para fazer de Arthur Lira presidente da Câmara dos Deputados, com o apoio do presidente Jair Bolsonaro. Se essa jogada der certo, o partido aumenta ainda mais o seu poder de fogo para o próximo pleito.

Além da aliança entre PP, PSDB, PSB e PDT, que viabilizou a vitória de JHC na capital, o grupo governista deve enfrentar também a sanha dos partidos de esquerda e o retorno de Fernando Collor (Podemos) à disputa eleitoral. Ele deve ser candidato à reeleição no Senado e ter como adversário o governador Renan Filho, que pensa em deixar o governo para concorrer a vaga de senador.

Ainda não se sabe se Collor articula uma terceira força política, com um candidato seu ao governo do Estado e ele na disputa pelo Senado; ou se aceita uma aliança com o grupo de oposição, liderado por Cunha, Arthur Lira, JHC e ex-governador Ronaldo Lessa (PDT).

Tudo vai depender também das articulações nacionais, já que nesse grupo há, pelo menos, três candidatos declarados à presidência da República: o próprio presidente Jair Bolsonaro, o governador de São Paulo João Dória (PSDB) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT).

Como a conjuntura nacional tem mais força nas eleições gerais do que nas eleições municipais, é provável que a sucessão de Bolsonaro interfira na disputa pelo governo de Alagoas. Por isso, até a formação das chapas que vão disputar a sucessão de Renan Filho, em 2022, muita água vai rolar e tudo pode acontecer.

Uma coisa é certa, com o governador querendo eleger seu sucessor e disputar a vaga de Fernando Collor no Senado, o próximo pleito tem tudo para se transformar em “briga de cachorro grande”.

Por Ricardo Rodrigues

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