Ricardo Rodrigues

Morre Tom Veiga; fica legado do Louro José

Por Ricardo Rodrigues

O ator Tom Veiga, intérprete do Louro José, do ‘Mais Você’, antes de morrer, aos 47 anos, disse que “a função de quem faz tv, e entra nas casas das pessoas sem pedir, é servir”. Ajudar, oferecer, aconselhar e divertir.

No entanto, há dentro da programação tanto lixo, tanto conteúdo de péssima qualidade, que a fala do Louro José perde o sentido. É como se fosse uma metáfora, entre servir e servir-se. O que coloca em cheque a responsabilidade das emissoras com a qualidade da opinião pública.

Quando o ator Tom Veiga morre, morre também o Louro José – por mais que esse personagem possa ser interpretado por outra pessoa. Morrem os dois, não porque fossem a mesma pessoa, mas porque tinham identidades, opiniões e decisões diferentes. Não nasceram no mesmo dia, tinham idades diferentes: um, era homem, casado, pai de família, com filhos para criar; o outro era um papagaio falante, namorador.

– O Louro era encrenqueiro, rabugento, chavequeiro, galanteador, mas muito divertido, inteligente –, descreveu o próprio Tom Veiga, numa entrevista à TV Globo.

Ele foi por quase 25 anos o intérprete do Louro José no programa "Mais Você", apresentado por Ana Maria Braga na TV Globo. Encontrado morto em sua casa na Barra da Tijuca, no Rio, Tom Veiga foi vítima de um AVC. Além do legado como um excelente ator, ele deixou quatro filhos.

Ana Maria Braga, que convidou Tom para fazer o Louro José em 1996, disse que perdeu mais que um parceiro, um amigo, um confidente: “Perdi um filho”. A relação dos dois era muito respeitosa e familiar, atestam os integrantes da equipe de produção do programa. “A gente não brigava, nunca brigamos este tempo todo”, revelou Ana.

O grande público conhecia o personagem, Louro José era famoso, mas seu interprete, Tom Veiga, um ilustre desconhecido. Ele mesmo revelou que gostava disso, pois não era importunado, nem parado para dar autógrafos.

Os fãs eram do Louro. Como os fãs de Sean Connery serão sempre fãs do 007 -, mesmo que o espião inglês seja interpretado por outro ator. Outros atores fizeram o 007, mas o primeiro nunca foi esquecido ou superado. Coincidentemente, Connery e Tom Veiga morreram no mesmo final de semana.

O mundo perdeu dois grandes atores e dois grandes personagens.

JORNALISTA

“A essência de um bom jornalista é estar no lugar certo, na hora certa… E isso você faz como ninguém! Feliz Ano Novo e muito sucesso em 2006”, foram os votos a mim dirigidos por minha “amiga secreta” Cláudia Galvão – jornalista de primeira linha e uma grande mulher, corajosa, honesta, brigona, mas supersensível.

Guardo comigo até hoje essa frase que minha amiga Cláudia escreveu na contracapa do livro “Orgias”, de Luiz Fernando Veríssimo. Gostei mais da frase que do livro. Sempre que posso, lembro dela, serve-me de bússola, de guia, nas investidas insólitas, nas viagens arriscadas, inoportunas.

Outra lição de jornalismo aprendi revendo o filme ‘Nasce uma Estrela’, quando o garoto, que seguia a banda de rock e escrevia sobre ela, foi convidado pela Rolling Stones para escrever uma matéria exclusiva, capa da revista. O assunto seria a tal banda, vinha fazendo sucesso entre as bandas de rock emergentes.

O garotão levava jeito para "foca" (iniciante em jornalismo), aceitou a pauta e entrou em pânico. Gostava de acompanhar seus ídolos e escrever “bobagens” sobre eles, mas escrever para a revista número um do showbusiness, já era ousadia demais. Buscou ajuda de um jornalista veterano, que curtia o ocaso da vida, sorvendo generosos goles de gim.

“Para ser um bom jornalista, antes de mais nada, tem que ter coragem e ser impiedoso”, ensinou o decano, na conversa com o aspirante à repórter. O garotão saiu daquela conversa ainda mais confuso, mas não desistiu da pauta e partiu com mais de mil, viajou em turnê com a banda e seus intrépidos integrantes.

Apesar de muito novo e sem experiência nenhuma em jornalismo, o garotão fez uma excelente matéria e foi impiedoso com seus ídolos, ao escrever detalhes da intimidade deles, revelada numa lavagem de roupa suja, durante o voo de um avião em pane. Resultado: a matéria surpreendeu a todos e foi capa da revista.

Coragem eu sempre tive, mas nem sempre fui impiedoso, talvez seja esse o meu ponto fraco. Quando se trata de pessoas, e vidas estão em risco, prefiro não publicar a matéria e perder o furo de reportagem.

Tem notícia que a gente não gosta de dar, principalmente notícia ruir, notícia trágica, mas por força do ofício acabamos dando.

A morte do Louro José é uma dessas notícias que a gente não gosta de dar. Mas todo mundo acaba sabendo.

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