Reinaldo

O Brasil no mundo da lua

Em processo de ampla transformação, o país procura resolver dilemas próprios à sociedade da informação. O jornalismo mais sensível ao humano pode contribuir ao encontro de uma identidade cultural ainda não revelada.

Desde a IIª Guerra Mundial, o jornalismo brasileiro se debruça diante de duas vertentes literárias sem definir-se inteiramente por nenhuma delas: segue o modelo norte-americano, muito usado por Ernesto Hemingway (Adeus às Armas) e o modelo europeu, explorado pelo argelino Alberto Camus (A peste).

Um dos ramos da cultura brasileira, o jornalismo se defronta ainda nesse inicio de século com sua grande crise de identidade: ou contribui à construção de uma realidade consciente, procurando por caminhos reais para expressar sua verdadeira raiz ou segue a vereda traçada por Gilberto Freire (Casa Grande & Senzala), segundo a qual, como somos o povo do tapinha nas costas e tudo está resolvido, vamos continuar vivendo no mundo da lua e fingindo que tudo está resolvido sem nada ter sido resolvido.

Os modelos de jornalismo

No jornalismo norte-americano,cujo lead é baseado nas seis perguntas básicas – “o quê?”, “quem?”, “quando?” “onde?”, “como?” e “por quê?” –, a partir das quais se explica toda a história inspiradora da matéria a ser escrita, desenvolveu-se um conceito de objetividade que evita as fugas e tergiversações tão comuns ao jornalismo desenvolvido pelas mãos de escritores medíocres, cujas divagações foram sempre condenadas na América.

No jornalismo europeu, ao contrário, as divagações ganharam importância vital para a compreensão do lado humano das personagens e das próprias histórias componentes de um novo painel dimensionador de uma visão diferente da vida, a emprestar ao jornalismo europeu a elasticidade que, mais tarde, invadiria o próprio terreno da sociologia e da filosofia na região.

Assim, ao invés de buscar na objetividade sua razão de existir, o jornalismo europeu passou a trilhar o caminho da uma outra dimensão dos fatos humanos, explorando a subjetividade deles, sem reduzir sua importância material e filosófica.

Encruzilhada

Hoje, no Brasil, por exemplo, há duas redes de TVs nessa encruzilhada: de um lado, a Globo e suas afiliadas, além da chamada grande imprensa nacional, que praticam a vertente do jornalismo da escola norte-americana, procurando guiar-se pelas pesquisas de mercado na ânsia desmedida de atender seus anunciantes/fornecedores/patrocinadores. Do outro, a TV Record com seu canal Record News, de notícias 24 horas, sem saber se faz um jornalismo com a objetividade norte-americana ou se opta pelo jornalismo de escola europeia, de avaliação e interpretação.

Na realidade, o aprofundamento e a responsabilidade de fazer um ou outro com seriedade e sem fantasias requer grandes investimentos em pessoal, pesquisa e equipamentos. E não cabe aqui a discussão sobre quem entre as duas maiores redes tem feito maiores investimentos nessas áreas. Mas cabe sim medir, brevemente, os resultados e efeitos da utilização das vertentes jornalísticas ou fazer uma espécie de avaliação causa/benefícios auferidos em sua utilização.

Nova dimensão

Ninguém melhor do que o anunciante tem interesse em saber se esse ou aquele produto jornalístico está alcançando a audiência. Pois, o anunciante é, praticamente, quem mantém no ar os programas. Por exemplo: qual o interesse de um Bradesco em manter no ar um programa jornalístico que não fale nada de economia ou não noticie o dia a dia das bolsas de valores? Qual o interesse de uma empresa que trabalha com alimentação em anunciar num programa jornalístico que não defenda os interesses das crianças, escola e moradia decentes para elas, emprego para seus pais e o bem estar para suas famílias?

No Brasil, o jornalismo ganha uma nova dimensão, a partir do questionamento e da busca de identidade do país. Assim, com as mudanças ocorridas no interior da sociedade brasileira nos últimos 10 anos, como os resultados do último censo do IBGE demonstraram, não será surpresa que a modalidade do jornalismo norte-americano venha a ceder lugar cada vez mais ao jornalismo de reflexão. Sobre esse modelo está debruçada, em maior ou menor medida, amplos setores da sociedade europeia, talvez ainda à procura de um idealismo possível tantos anos depois da Revolução Francesa (1789-1799).

Há uma consciência entre os homens da propaganda de que só se faz a TV que os anunciantes almejam. Não se produz a TV que os jornalistas querem ou anseiam, mas aquela que obtém audiência e que é desejada pelos anunciantes. Deste modo, a qualidade da TV brasileira estaria na dependência direta da “qualidade” do telespectador. Se o telespectador é, em sua maioria, do tipo que lê pouco e apresenta sérias limitações culturais e informacionais, não adianta produzir programas de TV a um nível elevado porque não alcançarão a audiência pretendida. Não havendo retorno dos investimentos direcionados à promoção da qualificação dos programas, todo o processo fica comprometido.

É justamente aqui que entra a TV Pública, cuja programação que seria auspiciada pelo Governo Federal. Por que a TV Pública ainda não foi adotada integralmente no Brasil, apesar de tantos debates já realizados? Essa já é, entretanto, outra discussão.

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