Ricardo Rodrigues

Saudades das vidas perdidas

Uma homenagem àqueles que se foram antes do tempo, ceifados por esta maldita pandemia que não poupa ninguém, nem mesmo os comediantes

Por Ricardo Rodrigues

Saudades das vidas perdidas, ceifadas pela pandemia, pela violência e pela omissão das autoridades. Saudades das criancinhas que morrem de fome, antes de completar um ano, ou vítimas de balas perdidas, dos crimes de infanticídios, parricídios e facadas assassinadas. Saudades dos tempos em que o lar era sagrado, as escolas eram seguras e creches não viviam cenas de terror.

Saudades das cidades pacatas, das ruas acolhedoras, dos becos em festa e das vilas de Martinho e companhia. Saudades do humor contagiante dos humoristas que desafiaram o sistema, fizeram rir e foram assassinados. Saudades dos trejeitos do ator Paulo Gustavo para dizer sorrindo coisas sérias; para mostrar o caminho do amor ao próximo sem ser politicamente correto.

Perdemos as criancinhas assassinadas na creche de Saudades, em Santa Catariana, no mesmo dia que perdemos o sorriso de Paulo Gustavo, deixando o Brasil numa espécie de luto nacional. Perdemos outras crianças, outros jovens e adultos para essa doença terrível, essa pandemia desgraçada. Já são mais de 411 mil vítimas da Covid-19, entre elas tantas pessoas queridas.

Quem não tem entre os seus uma vítima dessa peste bubônica, dessa gota serena – como chamávamos as doenças incuráveis de antigamente? Saudades dos velhos tempos nos faz lembrar até da gripe espanhola, que tinha esse nome sugestivo, mas seu vírus teve origem nos Estados Unidos da América – a meca do capitalismo. Cem anos depois, o vírus da Covid-19 aparece no lado oposto, na China – a meca do comunismo.

A origem do mal, o ovo da serpente, tem que ser investigado, mas a cura da doença é prioridade. Seria e foi em praticamente todo o mundo, menos no Brasil, como ficou comprovado no primeiro depoimento da CPI da Pandemia, no Senado. Quando um ex-ministro do governo revelou a forma negligente com que o presidente tratou a doença, negando as orientações da Ciências e impondo um remédio sem eficácia comprovada.

Mataram o nosso riso. Implantaram o terror. O descaso. A corrupção. A dor. Que a morte de Paulo Gustavo não seja em vão, como pediu a atriz Tatá Werneck, em sua página da rede social. Que a morte das demais vítimas da Covid-19, entre elas tantos amigos, amigas e parentes, também não fique vão. Do mesmo jeito que não fiquem em vão as vidas ceifadas pela violência, pela fome e indulgência.

“Dizem que quando algum que amamos morre, deixa de viver entre nós, para viver dentro de nós”. Que o sorriso contagiante do comediante Paulo Gustavo permaneça, então, dentro de nós. Apesar de tanta tristeza. Que se dissipe a dor e nos traga esperança de nunca mais ver um ataque às crianças, como vimos em Santa Catariano, no Sul do País. Que em Saudades, as flores aliviem as dores, na lembrança dos anjinhos e suas professoras que se foram.

“Criança não foi feita para morrer criança”, já dizia o saudoso Dom Helder Câmara, para responsabilizar os governantes que fizeram pouco caso com a mortalidade infantil, deixando morrer aos milhares os “anjinhos” no Brasil. E o que é pior: de fome. Na mesma entrevista que se indignou contra a fome em nosso País, Dom Helder contou uma história comovente da mãe que acabara de perder um filho recém-nascido.

– Quando o filho mais velho quis saber para onde o irmão estava indo depois de morto, a mãe disse que o irmãozinho iria para o céu. Foi quando o filho maior perguntou para mãe se no céu tem pão.

No céu tem nuvens de algodão. Nas nuvens da grande rede, milhares de informações. Frases e registros históricos que facilitam a compreensão da atual conjuntura. E nos fazem sonhar com dias melhores, como pessoas melhores, como a paraibana Juliette, a grande campeã do BBB-21. Ela que, depois de 100 dias confinada, foi corada campeã do reality show, no mesmo dia que perdíamos Paulo Gustavo, entre milhares de vidas perdidas para Covid-19.

Quem dera, então, que saudade não lembrasse tragédias, fosse apenas inspiração para boleros ou nome de cidade: Saudades…

Se uma frase só não basta, parafraseando Dom Helder, deixo essa, para evitar que outros humoristas sejam vítimas da Covid-19, como foi Paulo Gustavo; como foram outros artistas, que queimaram a largada e partiram para outro plano, antes do tempo: “Comediante não foi feito para morrer antes, foi feito para morrer mais adiante”. Afinal, a vida na Terra segue mais triste sem eles.

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