Templo do futebol mundial, o Maracanã completa 75 anos, nesse 16/6

16 / 06 / 25

Eterno ‘maior do mundo’, o palco sagrado do futebol brasileiro já recebeu duas finais de Copa, entre outras partidas antológicas, shows de estrelas da música, um papa, uma rainha e o Papai Noel

Autor: Carmélio Dias — Rio de Janeiro

O PALCO DO FUTEBOL MUNDIAL COMPLETA 75 ANOS DE EMOÇÃO E BOLA CHEIA

 

Pouco importa o setor, geralmente quem quer que já tenha ido ao Maracanã consegue lembrar com nitidez a sensação de entrar pela primeira vez no estádio. Tem sido assim há 75 anos. A inauguração oficial aconteceu em 16 de junho de 1950, ainda com andaimes montados nas arquibancadas. No dia seguinte, aí sim, com entrada franca, houve a primeira partida de futebol. Encheu, claro. O selecionado paulista bateu o carioca por 3 a 1, mas o resultado era o que menos importava. Os que estavam ali fizeram história: tiveram o privilégio de experimentar antes de todo mundo aquele frisson que acompanharia gerações.

Míseros sete dias depois — e o estádio ainda precisando de arremates —, a seleção brasileira entrava em campo para golear o time mexicano por 4 a 0. Era o início da Copa do Mundo de 1950. É possível dizer que aquela partida foi o capítulo final de longa disputa travada fora das quatro linhas, desde que a Fifa anunciou, em 1946, o Brasil como sede do mundial. O GLOBO, ainda um jovem periódico, prestes a completar 25 anos, entrou de cabeça na campanha pela construção de um estádio à altura do evento e da paixão que o futebol já despertava entre os brasileiros. O clima de então pode ser medido pela forma como o jornal tratava o assunto quase diariamente: “A batalha do estádio”.

Em uma série de artigos apaixonados, o jornalista Mario Filho — que acumulava o cargo de editor do caderno de esportes do GLOBO com a direção do Jornal dos Sports — não apenas incentivou a construção da nova arena como fez questão de bater na tecla de que deveria ser algo grande: o maior estádio do mundo. Em 1947, no entanto, a tal batalha parecia perdida. Em maio daquele ano, Mario Filho dizia em entrevista ao jornal: “Não quero perder a esperança, embora veja o tempo passar sem que se faça nada”.

Monumento da cidade

A demora explica, em parte, os andaimes e as madeiras aparentes na abertura da Copa. Só em 20 de janeiro de 1948, Dia de São Sebastião, padroeiro do Rio, foi lançada a pedra fundamental: “A ‘batalha do estádio’ viveu ontem (…) um capítulo culminante que foi o lançamento da pedra fundamental da grandiosa construção nos terrenos do antigo Derby Club”, publicou, em tom de comemoração, O GLOBO.

O terreno escolhido — não sem polêmica — foi a enorme área do antigo hipódromo da cidade. Quem torcia o nariz para a ideia fez pressão para que fosse em Jacarepaguá. O local logo passou a ser chamado de “Colosso do Derby” nas reportagens. E assim ficou por um bom tempo. A forma de nomear o estádio simplesmente como Maracanã aparece pela primeira vez no jornal apenas nos últimos meses de 1950, depois da Copa e da desastrosa derrota do Brasil para o Uruguai na final: o mundialmente famoso Maracanazo.

Difícil imaginar o Rio sem o Maracanã. O estádio é parte da cultura carioca, como a praia e o samba, e palco para emoções que não se limitam ao futebol. Para além das duas finais de Copa do Mundo e tantas outras partidas históricas, recebeu espetáculos musicais memoráveis — entre os quais a segunda edição do Rock in Rio (1991) e shows de Frank Sinatra (1980), Kiss (1983), Madonna (1993) e Paul McCartney, o primeiro de muitos do beatle no Brasil, em abril de 1990.

A segunda edição do Rock in Rio foi realizada no Maracanã em 1991 — Foto: Custódio Coimbra - 20/01/1991
A segunda edição do Rock in Rio foi realizada no Maracanã em 1991 — Foto: Custódio Coimbra – 20/01/1991

O Maracanã acolheu outros esportes, como vôlei — na memorável partida do Brasil contra a então União Soviética (1983) — e basquete. Lotou na visita do Papa João Paulo II. Viu a Rainha Elizabeth II, da Inglaterra, encontrar os craques Pelé e Gerson. E, durante muitos anos, até Papai Noel deu o ar da graça por lá. Sem trenó, mas de helicóptero, o bom velhinho pousava no gramado para delírio de milhares de crianças (e seus pais). A festa, uma ação promovida pelo GLOBO, chegou a reunir público estimado em 250 mil pessoas em 1978.

Até casamento

Em maio de 2014, O GLOBO estampou na capa uma foto da união dos jornalistas esportivos Aline Bordalo e Alexandre Araújo em pleno Maraca:

Aline e Alexandre na hora durante o casamento no Maracanã, em maio de 2014 — Foto: Custódio Coimbra
Aline e Alexandre na hora durante o casamento no Maracanã, em maio de 2014 — Foto: Custódio Coimbra

— Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Uma coisa linda ver o templo sagrado aberto para o nosso amor, sabe? Foi melhor do que comemorar título, comemorar gol, olhar aquela grandiosidade e dizer sim para o amor da minha vida e ele para mim também. Foi uma noite perfeita — relembra a botafoguense Aline, que frequenta o estádio desde criança, levada pelo pai.

Ao longo de sete décadas e meia o Maracanã mudou, em especial com as transformações para a realização dos Jogos Pan-Americanos (2007) e, depois, da Copa do Mundo de 2014. As obras trouxeram conforto, instalações modernas, mas há quem lamente que tudo isso levou junto parte da alma do estádio.

O geraldino

Perguntado sobre qual parte do velho estádio traria de volta, o escritor Luiz Antonio Simas, autor de “Maracanã – Quando a cidade era terreiro” (Mórula Editorial), lembra a marquise de concreto armado que, mesmo tombada pelo patrimônio histórico, teve sua demolição autorizada, mas prefere focar em um personagem: o geraldino, apelido dos frequentadores da antiga (e também desaparecida) geral do Maracanã.

Outros tempos: geraldinos durante jogo no Maracanã — Foto: Custódio Coimbra
Outros tempos: geraldinos se misturam nesse jogo do Flamengo no Maracanã – Foto: Custódio Coimbra

— Quando o Maracanã é construído, ele é pensado como um estádio inclusivo, mas não igualitário. A geral, espaço mais popular do estádio, era muito precária. A gente tem que ter um certo cuidado para não romantizar o precário. Efetivamente, era o espaço em que você ficava em pé e assistia a pouquíssimo do jogo, porque ficava na linha do gramado — reflete Simas. — Eu traria de volta o geraldino. Digo no meu livro que o fim da geral, na verdade, não queria terminar com a geral propriamente, mas queria afastar o geraldino do estádio.

No capítulo que trata do Flamengo, Simas cita Gerdau, geraldino que se tornou famoso por zanzar de um lado para o outro da geral acompanhado as jogadas do time e disparando, aos berros, instruções (nem sempre certeiras) para os jogadores e o técnico da equipe. Abelard Paiva de Abreu, de 54 anos, se lembra bem do Gerdau. Ainda criança, levado pelo pai, que era funcionário da Suderj — órgão do governo do estado que por anos administrou o Maracanã e onde Abelard trabalha hoje —, foi gandula no estádio. Sabe aquela sensação incrível de quem entra no estádio? Imagine para um garoto de 10 anos, quase dentro do campo.

— Teve um jogo, em 1980, aquele do Flamengo e Atlético Mineiro (decisão do Campeonato Brasileiro, 3 a 2 para o time do Rio, que ganhou seu primeiro campeonato nacional), que foi muito marcante. Inesquecível, entendeu? Foi a coisa mais linda que eu vi na minha vida, a maior emoção. Eu, garoto, e aquela festa imensa. Ficou muito marcado — lembra Abelard.

O futuro do estádio

A essa altura do campeonato, o fato é que aquele velho maraca não volta mais. Em setembro do ano passado a dupla Fla-Flu assinou contrato com o estado para gerir o “colosso” por mais 20 anos. Além da massa que enche os estádios, milhares fazem o tour do estádio, que pode incluir chute no gol e foto com réplica da Taça Libertadores. Em 2023, foram 356.444 visitantes e a parcial dos primeiros cinco meses deste ano aponta para crescimento de 30%.

— O Maracanã é referência. Sendo assim, o nosso compromisso está sempre na busca de garantir ainda mais segurança, conforto, tecnologia e acessibilidade a torcedores, atletas, prestadores de serviço e profissionais de imprensa que frequentam o estádio. A curto prazo, o Maracanã já contará com a troca de toda a iluminação do gramado e a finalização do planejamento para as trocas dos telões e da iluminação cênica, além de outras novidades. Para 2027, está prevista a construção do Novo Museu do Futebol — conta Severiano Braga, CEO do estádio.

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