Funcionários de empresa ligada à Prefeitura de Maceió são detidos com R$ 2 milhões

19 / 09 / 26

Valor em dinheiro vivo estava com dois homens que trabalham na Ceilurb; JHC assinou Termo de Ajustamento de Gestão de R$ 212 milhões com a referida empresa

A detenção reacende as suspeitas sobre os pagamentos milionários que a Prefeitura de Maceió, por meio da autarquia Ilumina, vem fazendo à empresa nos últimos cinco anos e meio: R$ 320,5 milhões ao todo, sendo R$ 52 milhões somente em 2026.

Por Tribuna Independente19/09/2026 08h25 – Atualizado em 19/09/2026 08h43
Funcionários de empresa ligada à Prefeitura de Maceió são detidos com R$ 2 milhões
Assinatura com empresa fornecedora da Ilumina foi feito três dias antes de o ex-prefeito renunciar 
Dois funcionários da Ceilurb, empresa fornecedora da autarquia de iluminação pública de Maceió, foram detidos na tarde de sexta-feira (18) ao sacar R$ 2 milhões em dinheiro vivo em uma agência bancária na capital alagoana.

A detenção reacende as suspeitas sobre os pagamentos milionários que a Prefeitura de Maceió, por meio da autarquia Ilumina, vem fazendo à empresa nos últimos cinco anos e meio: R$ 320,5 milhões ao todo, sendo R$ 52 milhões somente em 2026.

As circunstâncias também levantam suspeitas, que já estão sob a mira de investigação policial, de que o dinheiro seria de caixa 2, destinado a abastecer a campanha eleitoral de um ou mais candidatos.

A reportagem apurou que os dois detidos são Maurício Leite Tenório Costa, gerente da Ceilurb (na foto acima), e Leopoldo Del Rosário Toro Ramires Júnior, assistente da empresa. A Ceilurb, cujo nome de registro é Vasconcelos e Santos Ltda, opera o sistema de iluminação pública de Maceió desde 2022, por meio do Contrato nº 187/2022, firmado com a antiga gestão de João Henrique Caldas, JHC (PSDB).

A empresa é administrada por Ladjane Correia de Vasconcelos Torres Bandeira, que figura como sócia-administradora em documentos oficiais e que já foi indiciada por peculato em Sergipe. Já a Ilumina é presidida por Gutemberg Bezerra, primo de JHC e sobrinho da ministra do Superior Tribunal de Justiça Marluce Caldas.

Nos nove dias que antecederam a detenção na sexta-feira (18), a empresa recebeu R$ 8,5 milhões da Prefeitura, dos quais R$ 5 milhões foram classificados como “obras realizadas” e financiados por um contrato de crédito com a Caixa Econômica Federal; o restante correspondeu a parcelas do contrato regular e a uma parcela do Termo de Ajustamento de Gestão (TAG).

O caso ganha contornos políticos porque, três dias antes de deixar o cargo para concorrer nas eleições de 2026, a gestão do então prefeito de Maceió e hoje candidato ao Governo de Alagoas, JHC (PSDB), formalizou com a Ceilurb um TAG no valor de R$ 212.244.144,94, reconhecendo uma dívida acumulada com a empresa relativa a reajustes contratuais atrasados. JHC renunciou ao cargo em 4 de abril, três dias depois.

O acordo garantiu à Ceilurb prioridade no recebimento de recursos da Contribuição para Custeio do Serviço de Iluminação Pública (Cosip), a taxa que os moradores de Maceió pagam na conta de energia, cuja arrecadação mais que dobrou desde 2020, saltando de R$ 98,28 milhões para uma projeção de R$ 200 milhões em 2026. Em seis anos, foi arrecadado cerca de R$ 1 bilhão em taxas de iluminação pública.

O mesmo Contrato nº 187/2022 é hoje objeto de Inquérito Civil Público (nº 06.2026.00000296-3) aberto pela 14ª Promotoria de Justiça da Capital, Fazenda Pública Municipal, do Ministério Público de Alagoas. O procedimento, convertido em inquérito por portaria de 16 de julho de 2026, apura supostas irregularidades na aplicação de recursos públicos pela Ilumina, entre elas possíveis pagamentos indenizatórios por serviços prestados durante período de suspensão judicial do contrato; suposto desvio de finalidade na aplicação de recursos da Cosip, que seriam destinados à iluminação e ornamentação natalina e à instalação de uma pista de patinação; e possíveis irregularidades na execução, medição e pagamento de serviços de ampliação, modernização e telegestão do parque de iluminação pública, no período entre 2022 e 2025.

O procedimento teve origem em denúncia anônima enviada à Ouvidoria do MP/AL sob o pseudônimo “Göttin-Eos”.

Ceilurb

A Ceilurb também presta serviços de decoração natalina e festiva à cidade, incluindo a árvore de Natal gigante e a iluminação permanente de praças como o Parque do Centenário.

A apuração identificou que o mesmo grupo empresarial protagonizou contratações semelhantes, sem concorrência ampla, em outros dois estados.

Empresa está sob investigação em Belém, no Pará

Em Belém (PA), a Ceilurb obteve, por adesão a uma ata de registro de preços, um contrato de R$ 20,2 milhões para a decoração do Círio de Nazaré e do Natal de 2025, hoje sob investigação do Tribunal de Contas dos Municípios do Pará.

Em Aracaju (SE), recebeu R$ 10 milhões sem licitação da Emsurb para o “Natal Iluminado” de 2024, pagos com recursos de Cosip considerados irregulares pelo tribunal de contas local, e é alvo de uma CPI municipal ainda em andamento.

Procurada, a Prefeitura de Maceió ainda não se manifestou. A reportagem também tentou contato com a Ceilurb, sem retorno até a publicação.

Taxa de iluminação pública

A apreensão dos R$ 2 milhões ocorre em um momento em que a taxa de iluminação pública de Maceió também está no centro de um embate político entre o governador Paulo Dantas (MDB) e o ex-prefeito JHC (PSDB).

Em vídeo divulgado nas redes sociais no último mês, Paulo Dantas acusou JHC de dobrar a arrecadação em sua gestão com grande reajuste da taxa de iluminação pública, o que teria retirado, segundo ele, cerca de R$ 1 bilhão do bolso dos maceioenses. O governador afirmou ainda que a cobrança feita em Maceió é a mais cara do Nordeste.

“Maceioense, você sabia que paga a taxa de iluminação mais cara do Nordeste? Isso mesmo. O JHC vive de conversa mole, mas, na hora de cobrar taxa de iluminação, ele dá até choque no seu bolso”, declarou. “A verdade é simples: o JHC dobrou o que a prefeitura arrecada com essa taxa”, acrescentou ainda, na ocasião.

O governador também comparou a arrecadação municipal com os incentivos fiscais concedidos pelo Governo de Alagoas. Segundo ele, o Estado deixa de cobrar mais de R$ 3 bilhões por ano para estimular a geração de emprego e renda.

“Enquanto o Estado deixa de cobrar, por ano, mais de R$ 3 bilhões para gerar empregos e renda, o JHC tirou da população cerca de R$ 1 bilhão só com a taxa de iluminação pública”, disse. O ex-prefeito JHC, hoje candidato ao Governo do Estado, não respondeu às críticas de Paulo Dantas.

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Apreensões feitas por investigadores Crédito: Divulgação/Reprodução

Um dos homens havia acabado de deixar uma agência bancária no bairro do Farol quando equipes da Rotam fizeram a abordagem. A polícia encaminhou os dois envolvidos e o dinheiro à Diretoria de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco), que apura a origem e a destinação dos recursos.

Os funcionários foram identificados como Maurício Leite Tenório Costa, gerente da Ceilurb, e Leopoldo Del Rosário Toro Ramires Júnior, assistente da companhia. A reportagem informa que a Prefeitura de Maceió, por meio da autarquia municipal Ilumina, repassou R$ 320,5 milhões à empresa nos últimos cinco anos e meio, dos quais R$ 52 milhões em 2026. Nos nove dias anteriores à abordagem policial, a Ceilurb recebeu R$ 8,5 milhões do município.

Informações divulgadas pelas forças de segurança acrescentam que um dos conduzidos exerce função de direção em uma empresa responsável por serviços de iluminação pública no município. A Secretaria da Segurança Pública de Sergipe informou às autoridades alagoanas que o mesmo homem já teria feito outros saques no valor de R$ 1 milhão cada. As autoridades ainda não esclareceram a procedência dos R$ 2 milhões apreendidos nesta sexta-feira.

A operação começou após a SSP de Sergipe compartilhar informações com a Secretaria da Segurança Pública de Alagoas. A partir dos dados, agentes da inteligência da Polícia Militar passaram a acompanhar os envolvidos. Uma equipe da Rotam abordou o veículo depois da saída de um dos homens da agência bancária e encontrou o dinheiro durante a averiguação.

Ceilurb recebeu R$ 8,5 milhões em nove dias

Segundo o levantamento publicado pelo BNews Alagoas, a Prefeitura de Maceió transferiu R$ 8,5 milhões à empresa nos nove dias anteriores à ação policial. Desse total, R$ 5 milhões aparecem classificados como pagamento por “obras realizadas”, com financiamento ligado a um contrato de crédito com a Caixa Econômica Federal. O restante corresponde a pagamentos do contrato regular e a uma parcela relacionada ao Termo de Ajustamento de Gestão (TAG).

A Ceilurb atua no sistema de iluminação pública de Maceió por meio do Contrato nº 187/2022. Registros oficiais identificam a empresa como Ceilurb Ltda. e mostram que ela utilizou anteriormente a razão social Vasconcelos e Santos Ltda. O Portal da Transparência do governo federal aponta Ladjane Correia de Vasconcelos Torres Bandeira como sócia-administradora da companhia.

Ladjane já enfrentou indiciamento por peculato em Sergipe. A reportagem também informa que Gutemberg Bezerra preside a Ilumina e o identifica como primo do ex-prefeito João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), e sobrinho da ministra do Superior Tribunal de Justiça Marluce Caldas.

TAG registrou passivo de R$ 212,2 milhões

O contrato ganhou outra frente de análise em 2026. Documentos do Tribunal de Contas do Estado de Alagoas (TCE-AL) mostram que o município, a Ilumina e a Ceilurb assinaram em 1º de abril um Termo de Ajustamento de Gestão relacionado ao Contrato nº 187/2022. O documento registrou um passivo financeiro calculado pelo município em R$ 212.244.144,94.

O valor reúne R$ 60,77 milhões em diferenças de reajustes sobre processos que o município já havia pago e R$ 151,46 milhões referentes a processos pendentes, com os respectivos reajustes. O TAG estabeleceu uma composição para quitar o principal por R$ 200 milhões, após uma redução de R$ 12,24 milhões sobre o passivo calculado.

A assinatura ocorreu três dias antes de JHC renunciar à Prefeitura de Maceió, em 4 de abril, para disputar as eleições de 2026. JHC concorre atualmente ao governo de Alagoas pelo PSDB.

O acordo também tratou da continuidade do contrato e do cronograma de pagamento. O documento oficial do TCE-AL registra que o procedimento buscou solucionar controvérsias administrativas, financeiras e contratuais relacionadas ao serviço de gestão energética do parque de iluminação pública de Maceió.

MP-AL mantém inquérito sobre contrato

O Ministério Público de Alagoas mantém em andamento o Inquérito Civil Público nº 06.2026.00000296-3, sob responsabilidade da 14ª Promotoria de Justiça da Capital. O Portal da Transparência do MP-AL registra a abertura do procedimento em 16 de julho de 2026.

O inquérito apura suspeitas relacionadas à utilização de recursos públicos pela Ilumina. Entre os pontos que aparecem na apuração estão pagamentos indenizatórios referentes a serviços executados durante um período em que uma decisão judicial suspendeu o contrato e possíveis irregularidades na execução, medição e remuneração de trabalhos de ampliação, modernização e telegestão do parque de iluminação entre 2022 e 2025.

O procedimento também analisa uma possível utilização inadequada de recursos da Contribuição para Custeio do Serviço de Iluminação Pública (Cosip) em despesas relacionadas à decoração natalina e à instalação de uma pista de patinação. A denúncia que deu origem à apuração chegou à Ouvidoria do Ministério Público sob o pseudônimo “Göttin-Eos”, segundo a reportagem.

O TCE-AL já acompanhava controvérsias envolvendo o mesmo contrato. Em decisão publicada em abril, a Corte registrou que uma representação anterior apontava supostas irregularidades na execução do acordo entre a Ilumina e a então Vasconcelos e Santos Ltda. O tribunal promoveu reuniões de mediação antes da formalização do TAG.

Arrecadação da Cosip cresceu desde 2020

A Cosip financia os serviços de iluminação pública e entra mensalmente nas contas de energia dos moradores. Em Maceió, a arrecadação passou de R$ 98,28 milhões em 2020 para uma previsão superior a R$ 200 milhões em 2026, segundo dados publicados por veículos alagoanos. Entre 2021 e 2025, o município arrecadou aproximadamente R$ 800 milhões com a contribuição.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) informa que os municípios respondem pela implantação, expansão, operação e manutenção dos sistemas de iluminação pública, diretamente ou por meio de empresas às quais delegam esses serviços.

Empresa também atua com decoração de eventos

Além da manutenção e modernização da iluminação pública, a Ceilurb presta serviços ligados à decoração natalina e festiva. A companhia participou de projetos como a árvore de Natal de Maceió e a iluminação de espaços públicos da capital.

A reportagem também cita contratos do grupo em outras cidades. Em Aracaju, a empresa apresentou proposta superior a R$ 10 milhões para serviços de decoração natalina em 2024. Documento relacionado à contratação identifica Ladjane Correia de Vasconcelos Torres Bandeira como representante legal da empresa.

Uma contratação de R$ 20,2 milhões para o Círio de Nazaré e o Natal de 2025, em Belém, passou a integrar a apuração do Tribunal de Contas dos Municípios do Pará. A publicação afirma também que uma CPI municipal analisa a contratação realizada em Aracaju.

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