Ricardo Rodrigues

Vidas humanas importam

“Quer uma imagem do futuro? Imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre”. George Orwell (1984).

O futuro é hoje e imagem como essa, preconizada por George Orwell, no livro 1984, está presente na forma truculenta como a polícia trata as pessoas, em países como os Estados Unidos e o Brasil.

Foi assim, em maio deste ano, com George Floyd, morto após ter o pescoço esmagado por um policial, em Minneapolis; e mais recentemente, com a mulher negra, de 51 anos, que teve a cabeça pisada pela bota de um PM, na zona Sul de São Paulo.

Vidas humanas importam, independentemente de raça, cor, sexo, ideologia ou condição social. Vida é vida e como tal merece respeito e total integridade física.

Ninguém tem o direito de agredir ou matar ninguém. Muito menos ceifar a vida de um indefeso, quando este já se encontra dominado, sem chance alguma de reação, ou revide.
Lei nenhuma manda matar. Polícia nenhuma não tem “carta branca” para isso. É crime.

Então por que tantos casos de violência policial, tantas execuções, extermínios e genocídios, mundo afora?

Por favor, me respondam. Quem estaria por traz disso? Quem seria responsável por tantas mortes? O sistema? Esse mesmo que a sociedade tanto admira ou odeia. O sistema capitalista? Mas no comunista também há truculência.

Não importa o sistema, a opressão é globalizada quando se trata da luta de classe. Da luta pela sobrevivência num mundo tão desigual, com tantas contradições, tanta fome e opressão.

O peso da bota na cabeça de uma mulher negra, na grande São Paulo, é igual ao peso do joelho do policial que matou George Floyd esmagado no asfalto, nos EUA. Por que lá houve uma reação tão forte, e aqui no Brasil, não houve nada?

Quase nada. Também protestamos contra as mortes de negros praticadas gratuitamente por policiais. Protestando de menor forma quando policiais são assassinados por bandidos. Mas ficamos sem entender direito como parte da população ainda apoia esse fogo cruzado.

Todas as vidas importam. Não importa quem seja a vítima. Se polícia ou bandido. Vida é vida. Se não há pena de morte em nossa Constituição, que sejam extintos e punidos os grupos de extermínios, que agem nas grandes cidades, muitas vezes, com a conivência e a omissão das “autoridades”.

Foi assim que aconteceu com meu amigo anarquista Nô Pedrosa e um sem-teto que estava com ele, assassinados a tiros dento de casa, em Maceió. É assim que agem, em Alagoas, os grupos de extermínio, ao arrepio da lei e sob o olhar velado dos três poderes.

Crimes e mais crimes praticados por policias que não são investigados, ou apurados e ficam por isso mesmo. Geralmente porque, como já dizia o radialista Mário Eugênio, “Polícia não investiga Polícia”. Disse isso e foi vítima do crime organizado, executado a tiros, nos anos 80, em Brasília. O mandante? Pasmem! O então secretário de Segurança do DF, acusado de comandar um grupo de extermínio, composto de policias civis e militares.

Consta nos anais de história, crimes e mais crimes, atribuídos à força pública, tendo como vítimas pessoas do povo ou por perseguição política, mas estes se mostram mais violentos nos anos de chumbo ou em governos neofascistas.

Recrudescem com a ascensão da direita e dos neoliberais ao poder. Em países com regimes totalitários e em situação de guerra civil, como no Oriente Médio e na África.
Tortura é um crime abominável, tão cruel e insano, que é considerado proibido até em épocas de guerra. No entanto, até hoje é praticado dentro e fora das unidades militares, seja tortura física ou psicológica.

No Brasil essa prática recrudesceu com a Ditadura Militar, após o golpe de 1964. Com a chegada dos milicos ao poder, patrocinada pelos ianques, a CIA mandou para cá vários paramilitares para ensinar práticas de tortura e interrogatório aos nossos agentes.

Parece que as lições dos porões ainda estão em voga, nas ruas do País. Foram ensinadas aos nossos soldados nas academias de polícia? Como são treinadas as nossas tropas de choque e batalhões de elite? Para agirem dentro da lei ou ao arrepio dela?

Com a resposta as “autoridades”, os órgãos de fiscalização e estudiosos de plantão. Quanto a mim, como jornalista, só me cabe reportar e repudiar imagens como essas que circulam pela mídia, mostrando mais uma vez a opressão policial a serviço do Estado.

“A vida na cidade é anônima e, por isso, abstrata. As pessoas se relacionam uma com as outras, não como personalidades integrais, mas como personificações de funções econômicas ou, quando não estão no emprego, como pessoas que procuram irrefletidamente o entendimento. Sujeitos a uma vida desta espécie, os indivíduos tendem a sentir-se solitários e sem importância. A sua existência deixa de ter qualquer importância ou qualquer sentido”.

Aldous Huxley (Regresso ao Admirável Mundo Novo”.

“Já não compramos laranjas, compramos vitalidade, já não compramos um automóvel, compramos prestígio. Com um dentifrício, por exemplo, adquirimos, não um mero antisséptico ou um produto de higiene, mas sim a libertação do medo de sermos sexualmente repulsivos. Com vodka ou whisky, não adquirimos um veneno protoplásmico que, em pequenas doses, pode afetar o sistema nervoso de maneira psicologicamente valiosa; estamos adquirindo amizade e boa camaradagem. Com o best-seller do mês, adquirimos cultura, a inveja dos vizinhos menos letrados e a admiração dos que são intelectuais”.

Aldous Huxley (Regresso ao Admirável Mundo Novo”.

Caso Floyd

Nas imagens, colhidas na segunda-feira (25/05/2020), o homem, identificado como George Floyd, de 40 anos, reclama e diz repetidamente: "Não consigo respirar"; enquanto o policial esmaga seu pescoço no asfalto.

A morte do George Floyd causou tanta indignação que várias manifestações contra o racismo se espalharam pelos EUA e o mundo.

Caso Parelheiros

O governador de São Paulo, João Dória disse que imagens de violência policial contra mulher negra em Parelheiros ‘causam repulsa’ e condenou a conduta de PMs.

Imagens mostram um policial militar pisando no pescoço de uma mulher negra de 51 anos na Zona Sul de SP. Policiais foram afastados.

‘Quanto mais me debatia, mais ele apertava a botina no meu pescoço’, diz a mulher agredida por PM.

Dória disse que é “inaceitável a conduta de alguns policiais”.

As imagens divulgadas pelo Fantástico no domingo (12/07) mostram um policial militar pisando no pescoço da mulher negra para imobilizá-la. Nas redes sociais, as cenas da mulher com a cabeça pisoteada remetem ao caso George Floyd.

Resta saber se, mais uma vez, essa truculência policial vai ficar por isso mesmo, ou se a população brasileira vai protestar contra esse tipo de ação criminosa praticada por agentes da lei, fora da lei. Fica a interrogação.

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