Explosão econômica não diminui desigualdade no Nordeste
Migração diminuiu, mas especialistas alertam que região ainda sofre com falta de investimentos
Dona Francisca Alda fugiu da pobreza do sertão cearense aos 17 anos, em 1979, quando embarcou em um ônibus rumo a São Paulo à procura de emprego. Ficou alguns meses na cidade, mas acabou escolhendo o Rio de Janeiro para viver. “Lá tem muito preconceito, aqui o pessoal gosta da gente, come da nossa comida e dança nosso forró”, conta. Quarenta anos antes, José Avelino trilhava o mesmo caminho. Casado e com quatro filhos, ele saiu da Paraíba em direção à capital fluminense com o sonho de se tornar soldado do exército.
Francisca e José não foram os únicos a atravessar o país em busca de uma vida melhor. Junto com eles, milhares de outros nordestinos pobres migraram para o Sudeste do país, atraídos pela pulsante economia industrial de São Paulo, as lavouras de café e o crescimento da região metropolitana do Rio de Janeiro. Fugiam também da seca, da concentração de renda e da infraestrutura precária de suas regiões.
O movimento continuou intenso, mas mudou de rumo com a construção de Brasília na década de 60. Mas com a saturação dos mercados no Sudeste e a explosão econômica no Nordeste nos últimos anos, as migrações rumo ao sul diminuíram significativamente.
A única coisa que permanece inalterada é a desigualdade econômica da geografia brasileira, de alta renda concentrada no eixo Sul/Sudeste, como mostra pesquisa do IBGE divulgada na última quarta-feira (12). Segundo o estudo, a renda gerada por apenas seis municípios corresponde a aproximadamente 25% de todo o país. Destas, apenas duas cidades fora do Sudeste entraram na lista: Brasília e Manaus, esta última impulsionado pelo crescimento da sua Zona Franca.
Mais de 1.300 cidades, juntas, detêm apenas 1% do total. Nesta faixa, estão 75% dos municípios do Piauí, 61,4% dos municípios da Paraíba e 50,9% dos municípios do Rio Grande do Norte, aponta o estudo do IBGE.
“O que observamos é um quadro quase que inalterado em relação ao passado. A melhora observada nos últimos anos vêm muito mais pela queda na pobreza como um todo, que acaba beneficiando o Nordeste, onde estão concentrados os mais pobres, do que uma melhora na distribuição regional”, explica o economista Humberto Maria do Nascimento, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Baixa qualificação
A maior parte dos que saíram do Nordeste pertencia à classe mais pobre do país e acabou por se empregar em trabalhos de baixa qualificação, como construção civil e serviços domésticos. A professora Sueli de Casto Gomes, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), mostra esta tendência no artigo “A mobilidade do trabalho do migrante nordestino e os movimentos xenofóbicos do centro-sul: uma questão migratória”.
“Em geral (os nordestinos migrantes) são pouco escolarizados e ocupam as formas de trabalho mais precárias, bem como, residem nos espaços mais desvalorizados”, aponta. A geografia das regiões metropolitanas mostra bem esta característica do movimento. Mais de 70% dos moradores da comunidade da Rocinha, a maior do Rio de Janeiro, são nordestinos ou descendentes, por exemplo.
Uma das características mais marcantes da influência nordestina no Rio é a Feira de São Cristóvão, onde trabalha Dona Francisca. O local se tornou ponto de encontro dos migrantes a partir de 1945. Aqueles que chegavam normalmente vinham após o “convite” de algum familiar. O encontro dos recém-chegados com parentes e outros conterrâneos era animado com música e comida nordestinas, e acabou dando origem a feira.
“Nordestino é assim, né? Vem pra trabalhar, vê que é bom e chama os parentes”, conta ela, aos risos, ao lembrar que veio ao chamado de tios. “Não dá tanta saudade assim de lá porque aqui a gente tem os parentes, os amigos, um pedacinho da nossa cultura”, conta. Dona Francisca é dona de uma dos maiores restaurantes do local, o Chiquita, há 32 anos. “Cheguei, montei e cresceu, fez sucesso. Hoje em dia, a família toda veio trabalhar comigo, veio muito primo de lá ajudar”.
Melhorias são “lentas”
Porém, apesar do crescimento na região nordestina e a queda das migrações, as mudanças na distribuição regional não deverão acontecer tão cedo, afirma Nascimento. “As obras de infraestrutura no Nordeste, como a transposição do Rio São Francisco, vêm atender uma demanda econômica para o país, mas sem pensar em levar mudanças afetivas para as regiões. O que acontece são empregos pontuais, durante as obras”, analisa.
O crescimento econômico das cidades não tem sido acompanhado por estas obras, piorando a qualidade de vida de muitos nordestinos, aponta o professor. “Manaus, por exemplo, que entrou no ranking das maiores cidades, tinha até pouco tempo, apenas 12% da cidade coberta por rede de esgoto. Há uma melhora econômica, reflexo do país, mas não há investimentos públicos suficientes”, aponta.
Para ele, apenas mudanças estruturais, como a reforma agrária e pesados investimentos em infraestrutura, de educação, saúde, saneamento básico e transportes, resolverão o problema. “Não há espaço político a curto prazo para estas mudanças. Se você pensar na força da banca ruralista, mesmo tendo 80% de nossa sociedade vivendo em grandes cidades, é, no mínimo, esdrúxula. Temos concentração de terra e concentração urbana. Sem reforma agrária e políticas rurais e estruturais, não resolveremos estes problemas”, acredita.
Queda da desigualdade
Em setembro, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri, apontou uma queda histórica na desigualdade social brasileira, evidenciada em uma pesquisa da instituição divulgada naquele mês. Na ocasião, o economista afirmou que a mudança “foi determinada, principalmente, pela expansão do mercado de trabalho, as políticas de transferência de renda e a ampliação no acesso à educação”.
Este aumento da renda dos mais pobres proporcionou melhorias. A pesquisadora do IBGE Sheila Zani, responsável pelo estudo citado, disse que existe um movimento de mudança na produção de riquezas, mas que ele é lento e se faz notar em um período maior de tempo.
“Este ano de 2010 foi quando as capitais geraram menos renda. De 1999 até agora, as capitais geravam 38,7%. Este número vem caindo e em 2010 chegou a 34%. Isso é consequência dos incentivos fiscais, que levam as empresas a sair das capitais, e das commodities, tanto as agrícolas quanto as minerais, que não estão nas capitais.”
Incentivos com investimento
O economista Samy Dana, da Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP) concorda com Nascimento, de que uma “mudança definitiva” na distribuição da economia brasileira só será possível com crescimento econômico e investimentos públicos.
Para ele, é importante incentivar os investimentos fora do eixo Sul/Sudeste. Mas alerta que muitas vezes as desonerações fiscais oferecidas pelos governos locais não compensam os gastos com transporte e logística, por exemplo. “É preciso diversificar a nossa estrutura econômica, mas para isso, precisamos crescer mais economicamente, precisamos investir para que valha a pena chegar nestes lugares”, afirma.
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