Professor Abel Galindo esmiúça afundamento do solo praticado pela Braskem em Maceió

21 / 08 / 24

"Braskem como um maga crime ambiental, social e econômico praticando lavra ambiciosa de sal-gema em Maceió".

Autor: Ricardo Rodrigues

Livro do engenheiro civil especialista em solo detona a mineração predatória praticada pela Braskem na capital alagoana e resgata as primeiras grandes edificações de Alagoas

 

Perto de completar 50 anos de profissão, o professor Abel Galindo lançou, na semana passada, um livro de memórias, com relatos sobre seus trabalhos e reservou um capítulo especial sobre o afundamento do solo provocado pela Braskem, na capital alagoana. No livro, o experiente professor, especializado em estudos de solo, esmiúça a “lavra ambiciosa” e trata o Caso Braskem como “um maga crime ambiental, social e econômico praticado por uma mineração de sal-gema em Maceió”.
Nesse capítulo de “Vivências – Conhecimentos e Experiências de um Engenheiro Civil Geotécnico”, ele começa com um registro histórico, dizendo que em 1975, em plena ditadura militar, os governos federal e estadual autorizaram a exploração de sal-gema no subsolo da capital alagoana “em discrepância com o parecer do então secretário de governo, professor José Geraldo Marques”.
Segundo o autor do livro, “na época, havia um grande interesse econômico [pela implantação da petroquímica em Maceió], pois na concepção dos gestores governamentais, o sal-gema, matéria-prima do plástico, do cloro, ácido clorídrico. soda cáustica e de outros produtos, seria a redenção econômica do Estado de Alagoas”.
O livro foi lançado na noite da última terça-feira (13/8), o auditório do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Alagoas (Crea-AL). A obra resgata cinco década de carreira do engenheiro, que se formou em Engenharia em dezembro de 1974, pelo Centro de Tecnologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
Com mestrado em Geotecnia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPA), Galindo foi professor do curso de Engenharia da Ufal de 1977 a 2014, ministrando sempre disciplinas na área de geotecnica. Atualmente, ele é o dono e responsável técnico da empresa AGM Geotécnica, empresa especializada em fundações.
Referência na área onde atual em todo o País, principalmente na região Nordeste, Galindo foi o primeiro profissional de engenharia a responsabilizar a Braskem pela tragédia. Foi observando as rachaduras nas casas dos amigos no Pinheiro que ele matou a charada e constatou que aquele problema estava relacionado à mineração.
No livro, ele relata essa e outras histórias, como engenheiro civil, em paralelo com a ascensão dos prédios verticais em Maceió, construídos entre as décadas de 70 e 80. Ao longo das páginas, Galindo narra também suas experiências profissionais relacionadas a casos importantes para o desenvolvimento da engenharia em Alagoas.
CPI DA BRAKEM
O engenheiro foi um dos especialistas ouvidos pela CPI da Braskem, no Senado, no início de maio. Com base depoimento dele e outros estudiosos no assunto, a Comissão concluiu que “a Braskem sabia da possibilidade de subsidência do solo e mesmo assim decidiu deliberadamente assumir o risco de explorar as cavernas além da capacidade segura de produção.
As jazidas poderiam ter sido exploradas sem risco, estima-se em até 125 milhões de toneladas de sal-gema, cerca de um terço do que vinha sendo extraído anualmente. Por isso, ao praticar a chamada ‘lavra ambiciosa’, a mineradora teria provocado o afundamento do solo e colocado em risco a vida de mais de 60 mil pessoas – segundo informações da Agência Senado.
No livro, o professor Galindo explica que “o sal-gema é uma rocha salina, que em boas condições pode ter resistência à compressão igual ou um pouco superior a 20 Mpa, que corresponde à resistência de um bom concreto. Em Maceió, essa camada de rocha salina ocorre nas profundidades de 950 metros a 1000 metros, em espessura máxima estimada de 280 metros e abrange os bairros: Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol e a Lagoa Mundaú”.
Segundo o professor, a área de ocorrência de sal-gema, onde se concentram as minas exploradas pela mineradora ao logo de quase 40 anos, tem aproximadamente 10 quilômetros de extensão, indo do Ginásio Temente Madalena, no Bom Parto, até a Estação de Trem em Bebedouro, no limite com o Flexal de Baixo. No sentido diagonal, a área de exploração das minas segue das margens da Lagoa Mundaú até as proximidades complexo educacional do Cepa, na divisa com a Avenida Fernandes Lima.
EVIDÊNCIAS
De acordo com o professor, há dezenas de evidências que provam que as rachaduras nas edificações, nas ruas e nos terrenos dos bairros que afundam iniciaram antes de 2018, como ele mesmo desconfiou visitando as casas dos amigos e acompanhando o agravamento das rachaduras, a partir de 2010. No entanto, o sinal de alerta foi dado em março de 2018, quando ocorreu um abalo sísmico de intensidade 2,4 na escala Richter, seguido de um estrondo sentido por centenas de moradores da região.
“A partir daí, as fissuras e rachaduras em edificações se multiplicaram. Sabe-se, hoje, que esses danos, nessas residências e edifícios têm como causa a mineração desastrosa de sal-gema”. Fato este comprovado pelos laudos, mostrados a seguir, pelos técnicos do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Com base neles, a Defesa Civil de Maceió deu inicio a desocupação da zona de risco e a Braskem passou a indenizar os moradores que tiveram a deixar seus imóveis.
No entanto, o Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação, lançado pela mineradora em dezembro de 2019, para indenizar as famílias atingidas pela mineração, com o aval dos órgãos públicos de fiscalização e controle, até hoje é contestado por moradores e ex-moradores dos bairros que afundam. A maioria busca na Justiça ressarcimentos, por danos morais e materiais, não reconhecidos pela Braskem.
Mesmo assim, em março de 2023, a Braskem anunciou ter desembolsado R$ 3,5 bilhões para o pagamento de 16,8 mil indenizações, uma média de R$ 208 mil por imóvel. Um ano mais tarde, em abril de 2024, o valor desembolsado pela mineradora pulou para R$ 3,97 bilhões, em 18,256 indenizações (média de R$ 217 mil). Um incremento médio de R$ 9 mil por indenização, no período de um ano.
VIA SATÉLITE
Do ponto de vista do comportamento das minas e da estabilidade do solo, de acordo com Abel Galindo, “atualmente, toda essa movimentação desse maciço [de sal-gema] está sendo monitorada pela CPRM [Companhia de Pesquisa de Recursos Naturais, atual Serviço Geológico do Brasil (SGB)], Defesa Civil de Maceió e Braskem via satélite, por meio de GPS instalados nos bairros atingidos pela mineração”.
Segundo o professor, “a Defesa Civil, em conjunto com a CPRM, elaborou, ao longo de 2018 e 2019, mapas que mostram áreas de risco nos bairros citados de graus diferentes em função do tamanho das rachaduras nas edificações e nas ruas. São chamados Mapas de Feições. No último mapa publicado pelos órgãos, já mencionados, mostrou a ocorrência de edificações com rachaduras, situadas na área limitada pela rua Professor José da Silveira Camerino (antiga rua Belo Horizonte) e Avenida Fernandes Lima”.
Pode-se observar, concluiu o professor Abel Galindo, que “o afundamento vertical crítico aumentou em mais de 200 metros, na direção do bairro do Pinheiro”, entre os anos de 2019 e 2023.

Professor é responsável por 95% das fundações dos prédios de Maceió

Os principais edifícios construídos na capital alagoana têm um traço em comum: a maioria deles teve o estudo de solo assinado pelo engenheiro Abel Galindo. Para ele, “o sucesso de um engenheiro civil não está somente na sua capacidade técnica, mas também na sua honestidade e humildade”.
“Acabou por se tornar um registro verdadeiramente histórico porque acompanha a chegada dos primeiros edifícios em Maceió, logo após a construção do Edifício Breda no final dos anos 60. Me formei em Engenharia Civil em 1974 e fui construindo minha carreira de maneira que, em dado momento, eu já era responsável pelo cálculo e execução de 95% das fundações dos prédios da cidade”, relatou o professor, no material distribuído pelo Crea/AL, para a divulgação do livro.
Na matéria, a assessoria do Crea/AL destacou que “essa realidade levou o engenheiro ao mestrado em Geotecnia em 1977, campo em que se tornou amplamente especialista, figurando hoje entre as maiores referências em fundações e obras geotécnicas de Alagoas, tendo inclusive recebido a Medalha do Mérito Tavares Bastos, honraria entregue pela Assembleia Legislativa de Alagoas pelos relevantes serviços prestados ao Estado, em 2019”.
A assessoria do Crea/AL lembra ainda que “num curto vislumbre dos bastidores divulgado nas redes sociais, sua filha Juliane Marques, que seguiu os mesmos passos e também se tornou engenheira civil, publicou um vídeo com os projetos do pai, ainda desenhados à mão, datados dos anos 80. O vídeo já ultrapassa as 11 mil visualizações e acumula diversos comentários de entusiastas simpáticos à carreira do professor. Além dela, Ricardo Marques, seu irmão, também trilha como engenheiro civil e é um especialista em fundações já conhecido no mercado local”.
“Eles foram grandes incentivadores desse projeto”, revelou Galindo. “Numa conversa informal com a família, Juliane disse ‘Pai, você tem muita coisa para contar’, e tenho mesmo. Até recentemente, com o livro pronto, ela me relembrou de alguns outros casos que, por esquecimento, deixei de fora. Tive que correr pra paralisar a impressão e acrescentar 60 páginas ao livro”, brincou, ainda deixando em aberto a possibilidade de um segundo volume. “Quem sabe?”, despistou.
O material de divulgação do Crea/AL enfatiza ainda que “Vivências é um livro de celebração da trajetória de um brilhante e experiente engenheiro que, muito além da destacada perícia com que conduzia e executava seus projetos, também presenteia seu leitor com um verdadeiro portal para uma Maceió palco de grandes obras – e vivências”.
Na contracapa do livro que acabou de lançar, Galindo cita um pensamento do cientista alemão Albert Einstein (1879 – 1955), autor da teoria da relatividade: “A ciência sem religião é manca, a religião sem ciência é cega”.

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