Morre Dona Marisa, ex-primeira-dama do País
Casada com o ex-presidente desde 1974, ela acompanhou a fundação do PT
A ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva morreu na sexta-feira (3/2) no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. A mulher do ex-presidente Lula tinha 66 anos. Dona Marisa estava internada desde o dia 24 de janeiro, depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral hemorrágico provocado pelo rompimento de um aneurisma.
Repercussão
Seguindo o protocolo oficial para constatar a morte cerebral, os médicos submeteram dona Marisa a dois testes: o primeiro ocorreu às 12h05 e o segundo, às 18h05. O protocolo determina que o último exame seja conduzido por outro médico para comprovar a perda definitiva e irreversível das funções cerebrais.
O óbito foi constatado às 18h57, segundo boletim médico. Lula e sua família autorizaram a doação dos órgãos.
Hospital divulgou a nota de falecimento da ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva (Foto: Fernanda Cesaroni/G1) Hospital divulgou a nota de falecimento da ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva (Foto: Fernanda Cesaroni/G1)
Hospital divulgou a nota de falecimento da ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva (Foto: Fernanda Cesaroni/G1)
Logo após a divulgação do boletim, Lula postou em suas redes sociais informações sobre o velório. “A ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva faleceu nesta sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017, às 18:57. O velório será neste sábado (4), das 9h às 15h, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Dona Marisa Letícia se conheceram. O Sindicato fica na Rua João Basso, 231, em São Bernardo do Campo. Em seguida haverá no Cemitério Jardim da Colina uma cerimônia de cremação reservada à família.”
Lula postou informações sobre o velório e a cremação do corpo de Marisa Letícia (Foto: Reprodução/Facebook/Lula) Lula postou informações sobre o velório e a cremação do corpo de Marisa Letícia (Foto: Reprodução/Facebook/Lula)
Lula postou informações sobre o velório e a cremação do corpo de Marisa Letícia (Foto: Reprodução/Facebook/Lula)
Também nas redes sociais, Lula lembrou com carinho da esposa. “A ex-primeira-dama costurou a primeira bandeira do PT, começou a trabalhar aos 9 anos e organizou resistência das mulheres durante as grandes greves do ABC.”
Ao saber da morte de dona Marisa, o presidente Michel Temer decretou luto de três dias no país.
Exames confirmam a morte da ex-primeira dama Marisa Letícia
Na quinta, um boletim médico divulgado pelo hospital informou que um doppler transcraniano identificou a ausência de fluxo cerebral. Em seguida, Lula publicou em seu pefil no Facebook uma mensagem agradecendo o carinho.
Retrato da ex-primeira-dama Marisa Leticia Lula da Silva durante a inauguração da Retrato da ex-primeira-dama Marisa Leticia Lula da Silva durante a inauguração da
Retrato da ex-primeira-dama Marisa Leticia Lula da Silva durante a inauguração da “Cidade da TV”, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. (Foto: Leonardo Soares/Agência Estado)
“A família Lula da Silva agradece todas as manifestações de carinho e solidariedade recebidas nesses últimos 10 dias pela recuperação da ex-primeira-dama Dona Marisa Letícia Lula da Silva. A família autorizou os procedimentos preparativos para a doação dos órgãos”, diz o post. Depois, a página do Facebook do ex-presidente atualizou a foto de perfil e colocou uma imagem do casal sorrindo.
Post no Facebook do ex-presidente Lula sobre o estado de Dona Marisa (Foto: Facebook/Reprodução) Post no Facebook do ex-presidente Lula sobre o estado de Dona Marisa (Foto: Facebook/Reprodução)
Post no Facebook do ex-presidente Lula sobre o estado de Dona Marisa (Foto: Facebook/Reprodução)
Quando foi internada, dona Marisa passou por um procedimento de emergência, que durou cerca de duas horas, para conter a hemorragia no cérebro. Os médicos fizeram uma arteriografia cerebral para localizar a lesão e depois introduziram um cateter até a região afetada para estancar o sangramento.
Na quarta-feira (25), Marisa Letícia teve de passar por outro procedimento cirúrgico. Desta vez, para a “passagem de um cateter ventricular para monitoração da pressão intracraniana”, como informou o hospital. A decisão dos médicos ocorreu após “avaliação tomográfica de crânio para controle de sangramento cerebral”.
Morre a ex-primeira-dama Marisa Letícia, aos 66 anos
Na sexta-feira (27), dona Marisa passou por uma tomografia para verificar se tinha ocorrido melhora na infecção que havia se formado em seu cérebro. Ela foi acomodada em uma cama térmica para baixar a temperatura do corpo, que normalmente fica perto dos 35°C, para até 25°C. O objetivo era diminuir o metabolismo e, junto com ele, a atividade cerebral, para que o cérebro conseguisse absorver de forma mais rápida o excesso de sangue acumulado na caixa craniana.
A ex-primeira-dama Marisa Letícia (Foto: Roberto Stuckert Filho) A ex-primeira-dama Marisa Letícia (Foto: Roberto Stuckert Filho)
A ex-primeira-dama Marisa Letícia (Foto: Roberto Stuckert Filho)
Um exame realizado na segunda-feira (30) detectou a presença de trombose venosa profunda nas veias das pernas. Os médicos realizaram a passagem de um filtro de veia cava inferior para prevenir a ocorrência de embolia pulmonar.
Na terça (31), os médicos tiraram a sedação. Na quarta (1º), ela teve uma piora no seu quadro clínico no início da noite e voltou a ser sedada. A pressão intracraniana e a inflamação no cérebro tinham aumentado. O quadro clínico ficou irreversível, segundo os médicos.
A primeira-dama Marisa Letícia e o presidente Lula durante a Primeira Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres em Brasília, em julho de 2004 (Foto: Celso Junior/Estadão Conteúdo/Arquivo) A primeira-dama Marisa Letícia e o presidente Lula durante a Primeira Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres em Brasília, em julho de 2004 (Foto: Celso Junior/Estadão Conteúdo/Arquivo)
A primeira-dama Marisa Letícia e o presidente Lula durante a Primeira Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres em Brasília, em julho de 2004 (Foto: Celso Junior/Estadão Conteúdo/Arquivo)
Visitas
Depois da divulgação do boletim médico na quinta (2), amigos e políticos foram ao Sírio-Libanês prestar solidariedade à família de Lula.
O presidente Michel Temer visitou Lula com uma comitiva de ministros e senadores. Com Temer estavam José Sarney (PMDB), ex-presidente da República; José Serra (PSDB), ministro de Relações Exteriores; Eunício Oliveira (PMDB), novo presidente do Senado; Helder Barbalho (PMDB), ministro da Integração Nacional, e dos senadores Renan Calheiros (PMDB), Eduardo Braga (PMDB)-, Edison Lobão (PMDB) e Cassio Cunha Lima (PB).
Presidente Michel Temer e Lula (Foto: Beto Barata / Presidência da República) Presidente Michel Temer e Lula (Foto: Beto Barata / Presidência da República)
Presidente Michel Temer e Lula (Foto: Beto Barata / Presidência da República)
Ao chegarem ao hospital, Temer e comitiva foram hostilizados por um grupo de manifestantes (assista ao vídeo abaixo).
Temer chega para visitar Lula em hospital
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também visitou o petista. O encontro dos dois foi fotografado, e as imagens, postadas nas redes sociais de Lula. FHC entrou no hospital sem ser visto pela imprensa e não falou com os repórteres.
Lula conversa com FHC no Hospital Sírio-Libanês (Foto: Ricardo Stuckert/Reprodução) Lula conversa com FHC no Hospital Sírio-Libanês (Foto: Ricardo Stuckert/Reprodução)
Lula conversa com FHC no Hospital Sírio-Libanês (Foto: Ricardo Stuckert/Reprodução)
Nesta sexta, a ex-presidente Dilma Rousseff visitou Lula no hospital. Segundo a assessoria de imprensa do Instituto Lula, Dilma chegou ao hospital por volta das 11h30, e almoçou com o ex-presidente. Dilma entrou no hospital sem ser vista.
A ex-presidente Dilma Rousseff visitou Lula no hospital (Foto: Ricardo Stuckert) A ex-presidente Dilma Rousseff visitou Lula no hospital (Foto: Ricardo Stuckert)
A ex-presidente Dilma Rousseff visitou Lula no hospital (Foto: Ricardo Stuckert)
Lula recebeu Dilma na mesma sala onde encontrou FHC. Na quinta, depois que a família Lula da Silva havia autorizado o início dos procedimentos para doação de órgãos e um boletim médico informou que Dona Marisa ficou sem fluxo cerebral, Dilma já havia divulgado um comunicado nas redes sociais em apoio a Lula.
No texto, Dilma disse que Dona Marisa “foi o esteio da família”, para que Lula pudesse se dedicar à carreira política, e afirmou: “estamos juntos, presidente Lula, agora e sempre”.
A ex-presidente Dilma Rousseff postou na quinta-feira sobre dona Marisa Letícia (Foto: Reprodução/Facebook/Dilma Rousseff) A ex-presidente Dilma Rousseff postou na quinta-feira sobre dona Marisa Letícia (Foto: Reprodução/Facebook/Dilma Rousseff)
A ex-presidente Dilma Rousseff postou na quinta-feira sobre dona Marisa Letícia (Foto: Reprodução/Facebook/Dilma Rousseff)
Também visitaram Lula os senadores petistas Lindbergh Farias, Gleisi Hoffmann e Humberto Costa; os ex-ministros Gilberto Carvalho, Celso Amorim e Eleonora Menicucci, entre outros.
O vereador Eduardo Suplicy ressaltou o companheirismo de Dona Marisa durante o casamento de mais de 40 anos com Lula: “Foi uma companheira das horas mais alegres e difíceis para que Lula pudesse colaborar com o Brasil”, disse o petista.
Militantes do Partido dos Trabalhadores e sindicalistas da CUT também prestaram homenagem à ex-primeira-dama na porta do hospital. Eles colocaram rosas e fizeram orações.
Marisa Letícia, ao lado de Lula, durante comício na campanha presidencial de 2002 (Foto: Reprodução/TV Globo) Marisa Letícia, ao lado de Lula, durante comício na campanha presidencial de 2002 (Foto: Reprodução/TV Globo)
Marisa Letícia, ao lado de Lula, durante comício na campanha presidencial de 2002 (Foto: Reprodução/TV Globo)
Biografia
Dona Marisa Letícia nasceu em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, em 7 de abril de 1950. Filha de imigrantes italianos de origem camponesa, tinha como sobrenome de solteira Rocco Casa e passou a infância no sítio da família – que veio a dar origem ao Bairro dos Casa na cidade.
Antes de se casar com Lula, Marisa Letícia já havia sido casada com um taxista com quem teve um filho, chamado Marcos, adotado pelo ex-presidente quando tinha 10 anos de idade. O primeiro marido de Marisa foi assassinado durante um assalto.
Viúva, ela conheceu Lula no Sindicato dos Metalúrgicos. Poucos meses depois, em 1974, os dois se casaram. O casal teve três filhos: Fábio, Sandro e Luís Cláudio.
Marisa Letícia é vista ao lado de Lula ao deixar o prédio da Auditoria da Justiça Militar, em São Paulo, após julgamento dele e de mais 12 sindicalistas por atuação na greve do ABC em 1979, em foto de novembro de 1981 (Foto: Reginaldo Manente/Estadão Conteúdo/Arquivo) Marisa Letícia é vista ao lado de Lula ao deixar o prédio da Auditoria da Justiça Militar, em São Paulo, após julgamento dele e de mais 12 sindicalistas por atuação na greve do ABC em 1979, em foto de novembro de 1981 (Foto: Reginaldo Manente/Estadão Conteúdo/Arquivo)
Marisa Letícia é vista ao lado de Lula ao deixar o prédio da Auditoria da Justiça Militar, em São Paulo, após julgamento dele e de mais 12 sindicalistas por atuação na greve do ABC em 1979, em foto de novembro de 1981 (Foto: Reginaldo Manente/Estadão Conteúdo/Arquivo)
Em 1980, ano em que Lula e outros líderes sindicais foram presos pelo regime militar, Marisa Letícia foi uma das principais organizadoras de um protesto para denunciar a prisão do marido. No mesmo ano, a ex-primeira-dama acompanhou de perto a criação do PT. Em entrevistas, ela se orgulhava de ter costurado a primeira bandeira do partido.
“A primeira bandeira do PT eu é que fiz. Tinha um tecido vermelho, italiano, um recorte, guardado há muito tempo. Costurei a estrela branca e ficou lindo. Minha casa era o centro. Foi assim que começou o PT”, disse em 2002, segundo o acervo do jornal “O Globo”.
Marisa Letícia, esposa de Luis Inácio Lula da Silva, é vista com advogados do Sindicato dos Metalúrgicos em sua casa, em São Bernardo do Campo (SP), em abril de 1980 (Foto: Clóvis Cranchi/Estadão Conteúdo/Arquivo) Marisa Letícia, esposa de Luis Inácio Lula da Silva, é vista com advogados do Sindicato dos Metalúrgicos em sua casa, em São Bernardo do Campo (SP), em abril de 1980 (Foto: Clóvis Cranchi/Estadão Conteúdo/Arquivo)
Marisa Letícia, esposa de Luis Inácio Lula da Silva, é vista com advogados do Sindicato dos Metalúrgicos em sua casa, em São Bernardo do Campo (SP), em abril de 1980 (Foto: Clóvis Cranchi/Estadão Conteúdo/Arquivo)
Após a criação do PT, dedicou-se às campanhas de Lula à Presidência da República. Durante os comícios, era comum vê-la ao lado do marido ou atuando sozinha cumprindo compromissos para pedir voto ao petista.
Durante os dois mandatos de Lula como presidente, ficou famosa nacionalmente e era chamada de dona Marisa por Lula e pela imprensa. Foi criticada pela oposição por não ter se envolvido diretamente em projetos sociais, atribuições que, tradicionalmente, são realizadas pela primeira-dama.
Em 2004, foi centro de uma polêmica por ter determinado aos funcionários do Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente da República, que colocassem nos jardins novos canteiros de flores vermelhas em formato de estrela, símbolo do PT.
Marisa Letícia em entrevista ao Jornal Hoje, da TV Globo, em outubro de 1989 (Foto: Reprodução/TV Globo) Marisa Letícia em entrevista ao Jornal Hoje, da TV Globo, em outubro de 1989 (Foto: Reprodução/TV Globo)
Marisa Letícia em entrevista ao Jornal Hoje, da TV Globo, em outubro de 1989 (Foto: Reprodução/TV Globo)
Denúncias
Dona Marisa, assim como Lula, foi alvo de denúncias na Operação Lava Jato. Um dos casos envolve um apartamento triplex do Edifício Solaris, em Guarujá, no litoral de São Paulo. Ela foi denunciada pelo Ministério Público Federal (MPF) por lavagem de dinheiro na investigação que aponta irregularidades na aquisição e reforma do imóvel.
O juiz Sérgio Moro, da Justiça Federal do Paraná, aceitou a denúncia e a ex-primeira-dama era ré na ação penal, juntamente com Lula e outras seis pessoas.
A denúncia afirma que Lula recebeu propina de forma dissimulada, por meio da reserva e reforma do apartamento. Como mulher do ex-presidente, Marisa também teria se beneficiado dos recursos ilícitos. Por meio de advogados, a ex-primeira-dama sempre negou qualquer irregularidade e disse repudiar as acusações.
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